Precisamos falar sobre… Diversidade!

Pois é! Parece que a palavra diversidade costuma ser associada a uma certa polêmica por onde passa, por isso, passadas algumas semanas do último evento de cultura pop envolvendo a questão – Marvel “culpando” a diversidade pela queda nas vendas de quadrinhos, resolvi escrever sobre.

Grande parte dos textos que li, divulgados em sites “especializados” de cultura pop, optaram pela linha “click bait”, mantendo o assunto na superficialidade. Alguns, como o MDM, Quadrinheiros , Delirium Nerd e Judão, preferiram conferir ao tema a seriedade com que deveria ter sido tratado desde o início, apresentando dados e fatos para fundamentar seus argumentos.

Bom, mas por que a palavra diversidade gera tanta controvérsia?

Vejam, TODAS as produções culturais e manifestações artísticas, sociais, intelectuais, profissionais, científicas… estão inseridas em um contexto, ou seja, qualquer análise que não considere o contexto onde uma obra é produzida, corre o risco de ser extremamente superficial. Por isso, é preciso entender algumas coisas para que possamos apreender a real importância de convivermos com a diversidade.

A primeira delas é a tecnologia. A velocidade com que os avanços tecnológicos ocorrem tem causado impactos significativos em nossa sociedade. Os conceitos e convenções que garantiam a nossa convivência em grupo não podem mais ser aplicados ao contexto que vivemos hoje, pois os estudos sobre cultura feitos até então, se baseavam em uma ideia de identidade nacional e valores que circulavam dentro de um determinado território.

Esses territórios não existem mais! Ao menos não da forma como foram concebidos, uma vez que a globalização e o alcance da internet conseguem ultrapassar quaisquer barreiras físicas e geográficas, possibilitando que a mediação digital de nossas ações seja onipresente. Como assim? Hoje em dia não é possível prever o alcance e as implicações de nossos discursos propagados na internet. Ainda que tenhamos a ilusão de que nossas redes sociais caracterizem uma extensão de nossa vida privada, a verdade é que suas consequências atuam em âmbito público. Assim, a realidade é que não fomos preparados para lidar com essas condições. Fomos educados em uma sociedade pautada em conceitos que se aplicavam a um contexto que não existe mais.

Em ambientes cujos limites são facilmente observados, teorias sobre a hegemonia cultural fazem todo sentido. De acordo com Gramsci¹ e outros estudiosos de cultura, a produção cultural – isso também se aplicaria a todo tipo de expressão científica, social – atua no sentido de perpetuar um discurso hegemônico produzido por uma minoria dominante, cujo principal objetivo é a manutenção de um estilo de vida considerado adequado por essa minoria, a manutenção de um status quo, onde um pequeno grupo se beneficia da ignorância e do trabalho de uma massa que não sabe que é manipulada.

O resultado dessa hegemonia é uma produção padronizada onde valores são transmitidos e assimilados como sendo os únicos possíveis, o que no ocidente significa que a produção de conhecimento foi transmitida a partir do que homens brancos heterossexuais de classe média e alta consideravam apropriado. Assim, é compreensível porque grande parte das narrativas abordem feitos e problemas desses homens, colocando qualquer pessoa que for diferente dessa constituição como inferior, diferente, segregada…

Esses valores nos têm sido transmitidos há séculos e nós os interiorizamos de tal forma, que nos tornamos uma sociedade extremamente machista, homofóbica e racista. Prova disso foi o experimento feito pela Microsoft² com um robô que em menos de 24 horas de interação social na internet, se tornou exatamente reflexo dessa sociedade que mencionei, reproduzindo um discurso conservador, beirando o nazismo.

Porém, com a globalização e o constante avanço tecnológico, os contextos locais, regionais e nacionais passaram a sofrer os impactos dessas mudanças, possibilitando que outras teorias ganhassem espaço. Essa é a segunda coisa que precisamos saber: a cultura passou a ser observada sob o prisma do interculturalismo, conceito que aponta para o fato de que a cultura é composta de uma pluralidade de representações que vão muito além das estabelecidas socialmente e convencionalmente.

Isso significa, inevitavelmente, um choque, um conflito, afinal, após séculos entendendo que os valores que nos foram transmitidos culturalmente na verdade representam apenas uma pequena parcela de nossa sociedade, teríamos que aprender a assimilar e nos adaptar ao DIFERENTE e isso pode ser assustador para algumas pessoas.

Então, o que temos? Por volta dos anos 60, principalmente nos Estados Unidos, movimentos sociais ganharam força e visibilidade nas mídias da época. Esses movimentos passaram a questionar uma série de coisas, desde políticas públicas a direitos básicos que não lhes eram assegurados. Desde então, com o maior alcance das mídias e o advento da internet, aqueles que não se viam representados e que sempre foram silenciados, apagados ou simplesmente ignorados nas produções artísticas, científicas e intelectuais, passaram a reivindicar seu espaço.

Ou seja, o discurso que nos dizia que essas pessoas não existiam ou que não eram vistas porque não eram “competentes o suficiente”, o discurso meritocrático que prevalecia até há pouco tempo, se revelou um grande engodo na medida que pesquisadores foram descobrindo cientistas, artistas, escritores que foram extremamente relevantes, mas que foram convenientemente apagados, para que uma cultura hegemônica se estabelecesse.

No entanto, a crença de que certos grupos têm valor inferior a outros, e que por isso não deveriam ter suas manifestações consideradas, é justamente o que perpetua um pensamento conservador altamente nocivo para nós enquanto sociedade, pois é esse discurso que justifica genocídios como os ocorridos durante o Holocausto.

Não só isso, a convivência com a pluralidade dos discursos nos torna seres humanos melhores, pois é por meio da superação das adversidades que amadurecemos e nos desenvolvemos enquanto pessoas. Ter acesso a discursos variados também possibilita que sejamos mais criativos, pois nosso universo se amplia na medida que nos são oferecidas novas perspectivas, novas janelas por onde podemos observar a realidade, que é uma realidade plural³.

Um exemplo de como somos favorecidos pelo contato com o diferente é o estudo citado pelo pesquisador Ricardo Sales sobre diversidade nas organizações. Em seu texto4, Ricardo aponta os resultados alcançados por equipes em um determinado experimento, demonstrando que as mais bem-sucedidas foram aquelas que apresentavam características relacionadas à convivência com a diversidade. Responsável por uma agencia de consultoria que prestas serviços a grandes empresas como a Skol – sim, a nova campanha tem o dedo dele, Ricardo está prestes a concluir sua pesquisa de mestrado sobre políticas de diversidade e comunicação.

A escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adiche é hoje uma das maiores representantes da diversidade que precisamos no mundo. Ativista feminista e dos direitos humanos, em um dos eventos que participou falou sobre os perigos da narrativa única. Entre outras coisas, um ser humano que cresce acreditando que há apenas uma versão de um fato ou que a sua perspectiva é a única possível, não é um ser humano completo no sentido de que ele não é capaz de lidar com contrariedades. Pessoas que não conseguem aceitar o outro, o diferente, são pessoas intelectualmente mais limitadas, uma vez que, ao se privarem de conhecer outras perspectivas, se privam de ativar processos cognitivos relacionados à criatividade e imaginação, fato que afeta diretamente sua resolução de conflitos. Não à toa, os profissionais brasileiros, quando comparados a outras nacionalidades, são considerados mais criativose adaptáveis, afinal, nossa cultura é resultante de uma grande mistura.

Sendo assim, por mais que alguns grupos ainda se mostrem resistentes às mudanças, eles só o fazem porque gozam de privilégios que não querem abrir mão e porque suas limitações os impedem de vislumbrar as vantagens de aceitar que o mundo É DIVERSO e que não há nada que se possa fazer quanto a isso. Questões ligadas à representatividade dos grupos minorizados e à diversidade serão cada vez mais discutidas até que chegue o dia que não seja mais preciso. Até lá, que tal rever seus pontos de vista e se tornar uma pessoa melhor e mais preparada para o contexto atual?

Referências:

1 – http://www.saraiva.com.br/hegemonia-e-cultura-gramsci-3-edicao-1993898.html

2 – http://revistagalileu.globo.com/blogs/buzz/noticia/2016/03/microsoft-criou-uma-robo-que-interage-nas-redes-sociais-e-ela-virou-nazista.html

3 -https://www.scientificamerican.com/article/how-diversity-makes-us-smarter/

4 -https://www.linkedin.com/pulse/o-segredo-do-trabalho-em-equipe-ricardo-sales

5 -http://www.saraiva.com.br/cultura-e-diferenca-nas-organizacoes-reflexoes-sobre-nos-e-os-outros-2792480.html

 

 

Dani Marino

Dani Marino é pesquisadora de Quadrinhos, integrante do Observatório de Quadrinhos da ECA/USP e da Associação de Pesquisadores em Arte Sequencial – ASPAS. Formada em Letras, com habilitação Português/Inglês, atualmente cursa o Mestrado em Comunicação na Escola de Artes e Comunicação da USP. Também colabora com outros sites de cultura pop e quadrinhos como o Minas Nerds, Quadro-a-Quadro, entre outros.

  • zonewar

    O problema não é a diversidade, o problema é jogar personagens consagrados da década de 40,60 no lixo e substituir por personagens de outra etnia etc. coisa que não funciona. Você percebe que tem algo errado quando o hulk é um chines, homem-aranha é negro, homem de ferro é mulher, capitão marvel é uma mulher, thor é uma mulher, wolverine é uma mulher, capitão américa é negro etc, sem falar que transformaram o homem de gelo em homossexual, isso não tem cabimento. Eles deviam criar novos personagens em vez de descartar os clássicos pra agradar minorias;
    não tem necessidade de ter duas versões do heróis, não tem motivos pra ter uma versão branca e outra negra. o primeiro que deu certo foi miles morales, depois dai passaram dos limites.

    • Deixa ver se eu entendi o seu argumento – o problema não seria a diversidade em si,mas o excesso dentro do mainstream da editora Marvel?

      Você sabe que esta não é a primeira tentativa da editora, né?!

      • zonewar

        Você não entendeu, o que eu disse é que eles estão enfiando diversidade da maneira errada, não podem descartar personagens antigos por novos.

    • Daniela

      As narrativas estão ruins e isso nada tem a ver com a diversidade. Estariam ruins de qualquer forma como explicado nos links dos sites que mencionei.
      Quanto à escolha de heróis consagrados, bom, qualquer pessoa que leia quadrinhos há algum tempo saberia que eles mudam de características, aparência, posicionamentos dependendo da equipe responsável.
      Existe um motivo para que sejam escolhidos heróis conhecidos para tratar questões de representatividade e é bem simples: o peso e o alcance que eles têm e que não teriam personagens novos. E veja, essas histórias não são feitas para uma minoria. Elas devem ser feitas para que as pessoas entendam que não deveria haver minorias. Quem não faz parte dessas minorias precisa dessas narrativas tanto quanto as pessoas que não se veem representadas nelas.

      • zonewar

        Homem de ferro sempre vai ser tony stark, capitão américa sempre vai ser steve rogers e assim em diante

      • Alex Viana Monteiro

        Entendo demais a necessidade de se colocar diversidade dentro dos quadrinhos, e ainda de modificar a postura de alguns heróis, quanto a isso não há o que se discutir. Quanto a qualidade das narrativas…acho que isso já foi acertado.
        Agora no quesito personagem, acho que Zonewar tem alguma razão, que naturalmente, ao meu ver, é também fruto da falta de criatividade na estruturação das narrativas. O que ocorre é que não se modifica a postura dos personagens, consagrados heróis criados dentro da estrutura hegemônica – “classe média, heterossexual, branca…”. Eles estão sendo substituídos.

        O que me parece estranho nisso tudo?

        1º – A utilização de um símbolo (o herói) forjado numa estrutura social equivocada, mas de grande alcance, para favorecer a um novo credo – totalmente contrario ao que fundamentou o próprio símbolo – sem sequer questionar: Por que este símbolo tem tanto alcance, se sua pedra fundamental é firmada num discurso cego, daquele que só reconhece seus pares? Quem são os consumidores deste símbolo?

        Não seria então esse símbolo e seu consumo em larga escala o reflexo de uma sociedade que ainda não sabe lidar com as diferenças e os diferentes?

        2º – A substituição do equivocado de maneira equivocada. Eu quero “ser o símbolo”, mas não aquilo que ele representa. E por que eu quero ser ele? Eu tenho, e dentro do universo ficcional ainda mais, a possibilidade de ser qualquer coisa, então por que ser aquilo que eu não quero ser? Não seria fazer um cordeiro na pele de lobo?

        Não substituímos pessoas por pensarem de maneira diferente e até mesmo antagônica a nossa. A substituição do símbolo aniquila a possibilidade de diálogo com os personagens clássicos, sugerindo que aquilo que é divergente não pode refletir e mudar. Acredito que a reflexão da “não minoria” é parte importante nesse processo de transformação social, mas como isso fica estabelecido se o símbolo (herói que representa os anseios da classe média, heterossexual, branca) para atender essas mudanças deixa de existir? Eu preciso que Steve Rogers reflita sobre a posição da mulher, dos negros, da população LGBT, dos Índios (…) na sociedade, e que Steve Rogers fale com seu público leitor. Mas a substituição de Steve Rogers inviabiliza este contato.

        3º – O que é que faz de um herói, conhecido? Será que espaço ocupado pelas figuras masculinas é o mesmo que as femininas? Quantas heroínas são protagonistas em revistas? Mas é muito extensa a gama de heroínas dentro do universo Marvel, e ainda assim, difícil achar e acompanhar uma revista de um símbolo feminino. Será então que criar espaço e dar protagonismo a minorias já existentes dentro dos quadrinhos não seria um caminho? Naturalmente construído de maneira mais lenta, porém, mais sólida.

        4º – Os LGBT, putz que bom que apareceram, mas o FO$%DA é que num tem transição, parece que o cara foi abduzido. Até a HQ X ele era um símbolo, tal qual ele foi criado, na HQ XI ele tem outra vida, e o passado? cri!cri!cri!

        Tony Stark muito facilmente poderia fazer toda essa postura de machão para tentar reprimir uma mulher interior, e virar um símbolo Trans, e dai isso sendo implementado dentro da estrutura narrativa do quadrinho, ainda que promovesse uma certa reviravolta, seria feita com algum critério.

        Quero crer na falta de maturidade que ainda temos em lidar com todo o diverso ofertado pela “supressão” das fronteiras que a internet proporciona. Talvez esse seja um começo, ou até mesmo um caminho para a inserção das diversidades nas HQs e meus questionamentos nada mais são do que inquietações de quem cresceu lendo quadrinhos e gibis e sente um certo estranhamento nas mudanças.

        Muito legal o post Dani Marinho, acho que o fomento a esse debate é sim muito importante pra quem gosta de HQs. Ficamos por dentro de como os outros leitores percebem as mudanças e que caminhos vislumbram.

  • Daniela