WAKING LIFE – A vida é um sonho?

Filme do premiado diretor Richard Linklater, de Boyhood e Antes do Amanhecer, Waking Life foi produzido com técnica de rotoscopia – aquela em que os atores são filmados previamente e depois uma camada de desenho animado é usada por cima, em termos leigos – em 2001.

Apesar de a ideia principal girar torno da busca do personagem principal em descobrir se está dormindo ou acordado, a animação é na verdade um mergulho profundo em conceitos filosóficos e de física quântica capaz de deixar os nerds mais exigentes de boca aberta e olhos atentos.

Sonhar é destino

Durante todo o filme temos a sensação de estar sonhando, porque os movimentos dos personagens se misturam com imagens psicodélicas na medida em que os personagens convidados discorrem sobre diversos conceitos. As falas são dignas de citações constantes e nos provocam a refletir sobre a vida que levamos e de que forma lidamos com as conexões que desenvolvemos quando estamos acordados.

Waking Life significa “vida acordada”, mas o sentido é bem mais amplo, já que a produção propõe que tenhamos consciência de nossas ações, assim, uma tradução possível seria “vida consciente”. Por exemplo, em uma das minhas passagens favoritas, o personagem principal – sem nome, porque na verdade ele seria uma versão de cada um de nós – esbarra em uma desconhecida e ela retorna para falar com ele, demonstrando sua frustração nas relações mecânicas que desenvolvemos com uma série de pessoas com quem temos contato frequente:

“Eu não quero ser uma formiga.
Passamos pela vida,
esbarrando uns nos outros…
sempre no piloto automático,
como formigas…
não sendo solicitados a fazer
nada de verdadeiramente humano.

“Pare”. “Siga”. “Ande aqui”. “Dirija ali”.
Acões voltadas apenas à sobrevivência.
Toda comunicação servindo para
manter ativa a colônia de formigas…
de um modo eficiente e civilizado.

“O seu troco”. “Papel ou plástico?”
“Crédito ou débito?”
“Aceita ketchup?”

Não quero um canudo.
Quero momentos humanos verdadeiros.
Quero ver você.
Quero que você me veja.
Não quero abrir mão disso.
Não quero ser uma formiga, entende?”

Com participações de Ethan Hawke e Julie Delpy como o casal da trilogia mais famosa de Linklater, a película traz entrevistas e depoimentos do cineasta Steven Soderbergh (Erin Brockovich, Onze Homens e um segredo) e de outros especialistas em diversas áreas do conhecimento para falar sobre o sagrado, liberdade e determinismo, percepção do tempo, envelhecimento e outros temas que se posicionam diante de nós como uma pergunta: Seria a vida um sonho?

O intuito é que você realmente acorde para a vida e se posicione diante dela de forma consciente. Por isso, relacionar as reflexões geradas por Waking Life com outras produções que trazem conceitos filosóficos semelhantes em sua essência é algo esperado. Caso você tenha interesse em aumentar sua percepção sobre o assunto, eu já havia falado sobre essas produções no texto Acorde! Você está em uma simulação!

Então, sugiro que pegue um papel e uma caneta, porque certamente irá querer anotar várias falas. Aí, a pipoca, você pode deixar para as outras sugestões! O filme pode ser encontrado em partes no Youtube. Depois me conta que tipo de reação teve ao refletir sobre tudo que é proposto e me diga: Você está acordado?

Bom filme!

 

Dani Marino
Dani Marino é pesquisadora de Quadrinhos, integrante do Observatório de Quadrinhos da ECA/USP e da Associação de Pesquisadores em Arte Sequencial - ASPAS. Formada em Letras, com habilitação Português/Inglês, atualmente cursa o Mestrado em Comunicação na Escola de Artes e Comunicação da USP. Também colabora com outros sites de cultura pop e quadrinhos como o Minas Nerds, Quadro-a-Quadro, entre outros.