Podem as Máquinas Pensar? – Parte I

A Inteligencia Artificial é algo que entrou no nosso dia a dia e não mais fazemos esta pergunta como se ela fosse irrelevante. Todavia, seres artificiais pensantes ainda povoam as telas do cinema e as páginas da ficção científica, mostrando que as promessas e ameças que estes seres podem nos trazer ainda estão no nosso imaginário e merecem que nos debrucemos um pouco sobre o tema.
Será que ela pensa?

Será que ela realmente pensa? 

Esta pergunta não é nova. Alan Mathison Turing, matemático inglês, formulou-a nos anos 50, nos mesmos termos. Ele foi um dos pioneiros no desenvolvimento dos computadores digitais e muitos de seus princípios ainda são usados nos modernos computadores. Seus estudos relativos ao que mais tarde seria chamado de Inteligencia Artificial continuam atuais.

Turing, ao começar seu trabalho com computadores, sabia que suas ideias a respeito da capacidade de uma máquina pensar, encontrariam oposição. Então, num artigo intitulado “Computadores e inteligencia”, procurou dar uma resposta a esta pergunta.

A primeira dificuldade para realizar esta tarefa é definir o que é pensar e o que é máquina. Estes termos têm milhares de definições possíveis, porque cada um de nós tem uma ideia, nem sempre exprimível em palavras, do que seja cada uma delas. Seguindo Turing, podemos definir como máquina qualquer objeto construído para realizar uma ou várias tarefas. A sua característica principal é que ela é artificial e, neste ponto, todos concordam. Agora, segundo o matemático, para julgarmos se uma máquina pensa ou não, poderemos usar o mesmo critério que usamos para julgar se um ser humano é ou não inteligente, ou seja, se esta pessoa pode manter um diálogo inteligente.

Porém, quando formos julgar se uma máquina é inteligente ou não, poderemos ser levados por sua aparência não humana e não admitirmos ser ela capaz de pensar.

O jogo da imitação

Como todos somos passíveis de preconceito, Turing imaginou um artifício: o jogo da imitação.

Neste jogo, participam três jogadores: dois seres humanos e uma máquina. Um dos seres humanos tem a função de descobrir quem é máquina e quem é o ser humano, fazendo determinadas perguntas. As perguntas e respostas são enviadas por um mensageiro, para evitar o contato entre os jogadores.

Se, neste jogo, o terceiro jogador não souber diferenciar quem é o homem e quem é a máquina, então poderemos dizer que a máquina pensa.

O diálogo a seguir mostra o exemplo de um conjunto de perguntas e respostas entre um homem e uma máquina hipotética que, se tivesse acontecido em um jogo de imitação, poderia ser perfeitamente confundido com um diálogo entre dois seres humanos.

A máquina hipotética descrita no artigo de Turing seria capaz de interpretar textos, inclusive poesias. Ela seria inquirida por um professor de literatura, como faria com um aluno, para ver se era capaz mesmo de entender o que leu. Veja um trecho (adaptado de um artigo de Turing):

Homem (referindo-se a um poema apresentado a uma máquina): No primeiro verso, “Devo eu te comparar a um dia de verão (summer no original)?”, “um dia de primavera (printemps) ” não estria igualmente bem ou melhor?

Máquina: Não tem o número certo de sílabas.

Homem: Que tal “um dia de inverno (winter)”? Tem um número correto de sílabas.

Máquina: Mas ninguém quer ser comparado a um dia de inverno.

Homem: Mas, você não acha que São Nicolau  não lhe faz lembrar o Natal?

Máquina: De certo modo, sim.

Homem: Contudo, o Natal (na Inglaterra) é um dia de inverno e não creio que São Nicolau fizesse objeções a esta comparação.

Máquina: Não creio que você esteja falando sério. Quando se diz “um dia típico de inverno”, quer dizer um dia típico de inverno e não um dia especial como o Natal.

Turing desenvolveu este teste para não esbarrar com problemas de ordem metafísica, como a possibilidade de uma máquina ter consciência de si mesma, ou seja, chegar um dia a dizer: “Penso, logo Existo”, como um robô-Descartes.

O cientista, em outras palavras, admite que o que interessa é um resultado inteligente, uma resposta adequada ao problema proposto, não importando se a máquina tem ou não consciência ou emoções.

Se você quiser brincar um pouco, clique aqui.

Dê uma olhada também aqui.

Nos anos 50, além de Turing, um outro matemático célebre se dedicou ao estudo do cérebro artificial (a imprensa da época já chamava os computadores de cérebros eletrônicos): John von Neumann. Este pesquisador americano, como muitos de seus seguidores, acreditava que, para desenvolver a inteligência em uma máquina seria necessário conhecer-se primeiro o cérebro humano. Ele tentou, então, formular uma teoria matemática do comportamento humano, mas diante do tamanho descomunal dos computadores da época, duvidou da possibilidade de concretizar seu objetivo.

Seguiram-se numerosas discussões de caráter filosófico até que, em 1956, cunhou-se o termo Inteligencia Artificial para estas pesquisas, numa conferência que reuniu os primeiros especialistas do ramo. Todavia, apenas o nome da disciplina foi um consenso geral. Os pesquisadores divergiam nos métodos para alcançar os objetivos da nova ciência. Muitos acreditavam, como Neumann, ser necessário uma teoria e um modelo do cérebro humano, enquanto que outros achavam necessário fornecer problemas simples às máquinas já existentes.

Entretanto, estas discussões amainaram quando dois pesquisadores da Rand Coroporation, Allen Newell e Herbet Simon, descobriram que não era necessário compreender o cérebro para dar inteligência à máquina, mas sim compreender o comportamento humano. Ambos trabalhavam fazendo pesquisas sobre psicossociologia para a Força Aérea dos Estados Unidos da América e, por brincadeira, introduziram os resultados de suas pesquisas no computador, de tal maneira que a máquina reproduzisse determinados comportamentos tipicamente humanos. O resultado foi surpreendente. O computador, entre outras coisas, demonstrou um teorema de matemática de uma maneira mais elegante que a comumente aceita.

A partir daí não mais seria necessário estudar o cérebro humano, mas somente suas funções para dar inteligência à máquina. Em outras palavras, seria preferível a psicologia à fisiologia.

Da década de 60 em diante, muitos pesquisadores seguiram a linha de raciocínio de Newell e Simon, divididos em duas escolas. Uma delas, preocupada em desenvolver máquinas capazes de trabalhar com regras lógicas simples, com silogismo do tipo:

Todos os homens são mortais

Sócrates é homem

Logo: Sócrates é mortal

A outra, preocupou-se em dar às máquinas conhecimentos especializados de uma determinada ciência, os Sistemas Especialistas. Sistemas deste tipo tornaram-se famosos, como, por exemplo, o Mycin, um “especialista” em análises clínicas, baseado em sintomas de pacientes.

Continua…

A mais estranha figura nesse grupo: não posta, não participa de podcast, mas foi ele quem uniu todas as pessoas dessa bagaça...
  • Rosinha

    Com a cunhagem de atitudes feitas por Bertrand Russell, ficou aberta a porta para conceitos complexos e difíceis de formalizar como dúvida, crença e certeza. Além disso, Descartes destacou a importância da mente e sua relação com as coisas que existem lá fora.

    Podem as máquinas pensar? Os filósofos se ocupam com definições desde o tempo de Sócrates. Sócrates costumava fazer perguntas ambiciosas, como “o que é a justiça?”, “o que é a virtude?”, “o que é o conhecimento?” Será que podemos nos limitar a consultar o dicionário para responder a Sócrates, ou para resolver o nosso problema?

    Definições lexicais ou de dicionário não oferecem em geral a clarificação que procuramos. O dicionário nos mostra provavelmente qualquer coisa mais ou menos semelhante a uma lista de sinônimos Mas esses sinônimos precisariam ser igualmente definidos. É claro que não podemos continuar a definir eternamente.

    Mas é verdade que precisamos chegar a algo mais inteligível do que o ponto de partida. O que queremos como uma definição de pensamento? Acho que precisamos de uma definição útil que possa oferecer critérios, uma combinação de condições necessárias e suficientes que identifiquem o pensamento.