O Universo DC nos cinemas e a Liga da Justiça

Donas de décadas de História e histórias, as editoras DC e Marvel reúnem os principais super-heróis da ficção. Os quadrinhos das duas casas publicadoras divertem e emocionam crianças e adultos de todas as idades, sendo natural a crescente expectativa dos fãs para que esse sucesso se repita nas adaptações cinematográficas.

A Marvel saiu na frente ao lançar, em 2008, o filme Homem de Ferro, conquistando a atenção do grande público, não apenas dos fãs de quadrinhos, e iniciou uma vitoriosa jornada no cinema, apostando em aventuras bem-humoradas e na construção de um universo compartilhado com espaço para personagens e equipes mais e menos conhecidos, com qualidade variável, mas lucro constante.

A DC começou seu universo cinematográfico em 2013, com Homem de Aço, um novo filme de origem do Super-Homem, que dividiu opiniões por mostrar uma versão mais violenta, taciturna e resignada do maior super-herói de todos os tempos, com poucas e sutis referências a outros personagens e super-heróis da editora.

A visão bastante realista (alguns diriam niilista) do herói e da distância que sua condição significaria para o restante da humanidade pode ser atribuída em parte ao diretor Zack Snyder, cuja paixão pelos personagens da editora o levou a tentar reproduzir na tela as sensações proporcionadas pela leitura de seus quadrinhos clássicos.

Snyder apresentou a continuação de sua visão no segundo filme do universo cinemático da DCBatman V Superman, de 2016, que despertou paixões positivas e negativas quando lançado (e quando relançado com 30 minutos a mais, apenas em home video). Se a capacidade de gerar debates e proporcionar leituras variadas dos significados de suas cenas for o principal ingrediente para classificar um filme como Cult, com certeza Batman V Superman merece o rótulo.

A película trouxe de volta o Superman (de certa forma) melancólico e relutante de Homem de Aço e apresentou o Batman de Ben Affleck, calcado no vigilante veterano e brutal da minissérie dos anos 80 O Cavaleiro das Trevas, e foi saudado como um sucessor digno para o morcego interpretado por Christian Bale na trilogia dirigida por Christopher Nolan. E, além de render quase 900 milhões de dólares de bilheteria mundial, ainda apresentou uma personagem cujo carisma cativou a todos: A Mulher-Maravilha.

A super-heroína ganhou vida na interpretação de Gal Gadot, que refletiu a grandeza de uma das maiores personagens da cultura pop. Em 2017, seu filme solo, dirigido por Patty Jenkins, foi um sucesso de público e bilheteria, e um marco da diversidade e representatividade em Hollywood.

Após Batman V Superman, no entanto, a DC lançou Esquadrão Suicida (também de 2016), versão cinematográfica da equipe de vilões a serviço do Governo americano. Foi igualmente um sucesso de bilheteria e público, embora não de crítica, muito por conta de seu roteiro capenga e estranha montagem das cenas e da trama (muito diferente do apresentado em trailers arrebatadores e de temática mais adulta e violenta), fruto de um suposto rompimento da DC com o estilo sisudo, dramático e realista de Zack Snyder, e da tentativa de alcançar um tom mais alegre e leve.

Batman V Superman, com o subtítulo A Origem da Justiça, tornou efetivo o universo compartilhado da DC no cinema ao introduzir diversos personagens dos quadrinhos, incluindo Aquaman, Flash, Cyborg, Alfred, Lex Luthor e Apocalypse. A trama de Mulher-Maravilha o ampliou ao apresentar as Amazonas, um povo mitológico formado por mulheres guerreiras, e os próprios deuses do Olimpo. Esquadrão Suicida trouxe Amanda Waller, um novo Coringa e carismáticos vilões de Batman e Flash, como Pistoleiro, Crocodilo e a famosíssima Arlequina, que, vale dizer, roubou a cena.

Amado por uns e haterizado por outros, o universo cinematográfico da DC buscou sua aclamação definitiva (ou redenção, na visão de alguns) numa inédita reunião de seus maiores heróis. Afinal, se Os Vingadores foi um sucesso, por que Liga da Justiça não seria?

Porém, amedrontado com o fantasma de Batman V Superman, que gerou uma onda hater sem precedentes contra os filmes da divisão de filmes da editora, e colocou (infantil e desnecessariamente) fãs de quadrinhos da Marvel e da DC em pé de guerra (como se fossem hooligans torcendo por times diferentes em finais de campeonatos mundiais), a DC Films escalou o diretor de Os Vingadores, Joss Whedon, para finalizar Liga da Justiça, após o afastamento do diretor Zack Snyder, em razão de uma tragédia na família durante a produção do filme.

Onde se lê ‘finalizar Liga da Justiça’, leia-se ‘modificar o filme da Liga da Justiça’, pois, em sendo verdadeiros os rumores, Joss Whedon dirigiu novas cenas para substituir outras comandadas por Snyder, tornando o filme algo totalmente diferente do imaginado pelo diretor original.

Se tivemos dois cortes distintos de Batman V Superman para comparar a melhor versão final, o mesmo (ao menos por enquanto) não se pode dizer de Liga da Justiça, que há pouco fora lançado mundialmente, com recepção dividida da crítica, e, de certa forma, do público, que nesses primeiros dias teve menos sede ao pote que nos filmes anteriores do universo DC.

Se há uma palavra que pode definir o universo DC nos cinemas, portanto, é polêmica: Seus filmes não costumam passar desapercebidos pelas salas, mas inflamar discussões, tanto por suas qualidades e defeitos quanto pela caracterização de seus personagens e pelos possíveis rumos que poderão (ou deverão) tomar.

Arqueólogo do Impossível em alguma Terra paralela