O terror em nossas veias, uma oportunidade

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Sentir calafrios ao ver sinais de rostos fantasmagóricos nas fotografias é algo inédito para você? Imagino que alguma vez você ficou com medo de dormir quando assistiu O Exorcista ou jogou Fatal Frame. E, se você é das antigas e curte um game, deve ter se desesperado ao ver monstros bizarros saírem de um porão para te pegar em Alone in The Dark.

Você provavelmente já sentiu algum temor quando ficou sozinho no escuro, imaginando algo que você não pode ver estava ali ao seu lado. Você já deve ter sentido receio de olhar para a TV e ver uma menina de cabelos negros sobre a fronte saindo para te pegar. Sei de pessoas que até hoje têm medo desse tal Boi da Cara Preta.

Todo mundo já sentiu medo de alguma coisa mesmo que de modo imaginativo. Um amigo meu assumiu para mim que seu maior pavor são humanos com cabeças de animais, como os deuses egípcios. Ao ver um destes na tevê ainda quando era criança, ficou tão chocado que até hoje carrega com ele esse medo e prefere não assistir ao Stargate. Minha mãe é uma das mulheres mais corajosas que já conheci. Mas, quando criança, caiu num buraco. Quando foi tirada de lá, ouviu os adultos associando o buraco com ratos e o terror que passou foi associado ao roedor. E meu marido? Bem, ele nunca vê nada de terror sozinho e se nega a ouvir qualquer história minha. Pois bem, cientistas mostram que nossos medos mais íntimos estão ligados a algo que passamos, vimos ou ouvimos quando ainda somos crianças, e nem cientista é preciso ser para saber que isso é verdade.

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Quando senti medo pela primeira vez eu ainda era muito pequena. Até hoje não sei muito bem o que houve, se era vento ou minha própria respiração, mas uma maldita boneca soprou meus olhos. E olha que não era daquelas com ar dentro! Ok, pode rir, hoje eu não tenho medo de bonecas. Muito pelo contrário! Este episódio me fez vez o quanto gostei de sentir esse tipo de medo. E foi esse gosto que me levou a olhar o horizonte além do que é e ver o lado tenebroso que ele também tem. Um dos meus passatempos preferidos acabou na contação de histórias de terror. Que dirão meus amigos do laboratório onde faço minha pós? Sempre adoro contar histórias de terror aos amigos, inventadas ou não, e dar a eles a gratificante sensação do calafrio. E foi assim que passei também a escrever contos de terror.

Se o leitor quer escrever uma história assim, pode optar por ler e estudar Poe, Shelley, Stephen King, Lovecraft, De Felitta. Pode optar por se inspirar em games como Resident Evil, Silent Hill ou filmes como O Exorcista, Evil Dead, O Chamado ou os de assassinos em série. Mas nada fará com que você escreva algo diferente se não procurar por temas menos explorados ou que podem surpreender o leitor. Às vezes, as pessoas buscam assistir ou ler o clichê porque gostam. Outras, quando caem nesta armadilha e descobrem que pagaram por um clichê, podem passar a detestar a história. Essa busca por escrever um terror que saia da roda dos vícios, pode não estar em filmes, games ou livros, mas em uma música estranha do She Wants Revenge ou músicas dissonantes para ambientação de horror. A busca pode estar numa caminhada sozinho na noite, numa visita a um lugar que te pareça estranho e se colocar no papel de vilões e vítimas para analisar inúmeras perspectivas.

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Nunca contei isso a ninguém porque não tive coragem de assumir diretamente e vou aproveitar a ocasião. Certa vez, estava em um cemitério em São Paulo, no enterro de uma ente querida, quando vi abrirem a pequena portinhola do mausoléu. O ar entrou, revolveu um amontoado de cinzas que dançavam em redemoinhos, misturadas. Quando me dei conta do que era, aquilo tudo já estava dentro de meus pulmões. Por hesitação, segurei a respiração e dei um passo para trás. Então voltei a respirar o ar sem cinzas. Quando parei para pensar que havia enchido meus pulmões com as cinzas dos corpos dos meus queridos entes, pode parecer loucura, mas aquilo me deu um mote para escrever o conto O Cinza Milagroso ao livro Círculo do Medo.

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Quando tinha nove anos, fui morar numa casa que estava em construção, numa região de mata. Ao longo do terreno, sob as raízes dos arbustos, encontrei inúmeras moedas e negativos de fotos manchados. Eu não tinha ideia do que era tudo aquilo, mas eu havia achado um tesouro e o guardei em um baú. Minha mãe, quando descobriu, mandou jogar tudo fora, pois ela sabia que se tratava de oferendas aos espíritos. Este episódio está no conto A Chama Rubra, no livro de terror King Edgar Hotel.

Morei mais de vinte anos em área de mata, e vez ou outra meus cães traziam coisas, presentes indesejáveis. Uma vez os cães trouxeram uma cabeça de bode na porta de casa, animais de despacho e infelizmente até mesmo um pedaço de uma perna de criança. Sim, estas coisas acontecem quando você mora em áreas semiurbanas e violentas. Estes episódios me levaram a escrever o conto Memórias de Um Louco para o livro Legado de Sangue. Um pesadelo com um bebê me levou a escrever o conto Pequeno Lino que irá para a coletânea Tratado Oculto do Horror… E, assim, aproveitamos situações reais para criar nossas próprias e quase reais histórias de terror. E, quanto mais se aproximar do leitor, mais viva será e se manifestará nas suas sensações.

Meu amigo e o organizador das coletâneas de horror Alfer Medeiros passou três dicas mestras para quem quer escrever bons contos de terror. Aqui vão elas:

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  1. Provocar sensações no leitor, mexendo com sua imaginação. Muitas vezes é mais eficiente sugerir algo e deixar o leitor imaginar coisas horríveis por conta própria do que simplesmente jogar sangue e vísceras na cara dele.
  2. O clima também é essencial. É importante deixar que o leitor sinta o quanto a situação é opressora, aflitiva ou macabra, antes de efetuar alguma ação nesse cenário.
  3. Evitar clichês que façam a história perder a credibilidade junto ao leitor, seja pela previsibilidade ou pela falta de convencimento das justificativas da história.

Para quem quiser se aventurar na criação deste universo, o Alfer está organizando o Tratado Oculto do Horror, um livro de contos que será lançado em outubro pela Andross Editora. É só acessar o link, concordar com as regras e participar: 

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Clique aqui para ser direcionado à página de organização do Tratado Oculto do Horror

 

Paola Giometti nasceu em São Paulo, Capital, em 1983. É graduada em Biologia, mestre e doutoranda em Ciências. Colaborou com a Revista Mundo dos Super-heróis na edição 57 com uma matéria sobre o papel da mulher nos quadrinhos. Em eventos sobre a cultura nerd, Paola é cosplayer da personagem Lara Croft, sua heroína nos games e hqs desde a infância. Publicou o livro O Destino do Lobo, primeiro volume da série Fábulas da Terra, além de ter participado das coletâneas literárias Xeque-mate, Horas Sombrias, Aquarela, Círculo do Medo, King Edgar Hotel, Legado de Sangue, Outrora e Sede, todas da Andross Editora. Paola não só participou com contos das coletâneas Outrora e Sede como também foi a organizadora dessas antologias.
  • Muito bom o texto. Agora quando li Fatal Frame no primeiro parágrafo …. Não veio lembranças muito boas para mim. 🙂

    • Paola Giometti

      hahahaha, boa época do Fatal Frame 😀

  • Conrado Carlos Conrado

    Adorei!!!!!

    • Paola Giometti

      Obrigada 🙂