O que tem de tão bom nos JRPGs?

JRGPs nada mais são do que RPGs japoneses. E o que são RPGs? Resumidamente, são os famigerados Role-playing Games, jogos onde você encarna um personagem (às vezes mais de um) e acompanha/vive toda a trajetória dele em sua aventura. Mas e qual a graça então nos RPGs orientais? Eu poderia resumir tudo em: japoneses são muito maluc–criativos!

Enquanto isso, nos WRPGs (Western RPGs ou RPGs ocidentais) temos histórias muito calcadas no “realismo”, por mais que medieval ou futurista. Um dragão aqui, um troll ali, mas nada comparado às bizarrices japonesas ultra-coloridas e improváveis de se ver em nosso mundo real. Claro que os WRPGs também são excelentes dentro de sua proposta.

Eu sou declaradamente um apaixonado por JRPGs, principalmente os clássicos da época do Super Nintendo, como abordei um pouco mais nesse podcast aqui, caso alguém queira entender a história toda com um pouco mais de detalhes.

Foi um senhor choque de realidade quando explorei um RPG nos videogames pela primeira vez. Ao invés de andar da esquerda para a direita pulando em tartarugas, ou atirando em alienígenas, eu tinha um mapa mais amplo para andar em “três dimensões”. Cada personagem no cenário tinha algo para falar. Informações importantes para prosseguir na história. Recurso ótimo para um pirralho que não entendia nada de inglês, numa época onde não existia internet. Como não amar os dicionários de inglês?

A mecânica desses jogos era um dos pontos altos. Quão fantástica era a sensação de subir o level do seu personagem e ver que aquele inimigo, antes impossível de derrotar, agora poderia ser humilhado com um só golpe! Eu viciei logo de cara no sistema de grinding dos RPGs eletrônicos.

Não apenas subir o level do meu personagem era um grande atrativo, mas eu também podia comprar equipamentos: armas, armaduras, magias e por aí vai. Era muito mais poder do que apenas encostar numa flor e sair jogando fogo em tartarugas por aí. Aliás, esse sistema de dinheiro dentro dos RPGs que te obriga a administrá-lo bem para poder comprar itens de vital importância no jogo é um ótimo exercício financeiro para as crianças.

A quantidade de backtracking na maioria desses JRPGs fazia com que artificialmente eles se tornassem bem maiores do que já eram. Ir buscar um item lá no extremo norte do mapa para depois voltar ao início do jogo e realizar alguma quest dava certa sensação de liberdade e imersão na história. Além dos sempre presentes minigames que também agregavam muito ao gameplay.

Outro ponto que não posso deixar passar desapercebido são as trilhas sonoras. São tão lindas e imersivas que é impossível não se empolgar com as melodias dos grandes expoentes dos JRPGs. Como não ficar triste junto aos personagens de Tales of Phantasia quando ouvimos algo assim durante uma cena melodramática:

Ou abrir um sorriso de orelha a orelha ao som de Into the Thick of it. Sem esquecer, claro, que é necessária uma música épica para a hora em que a porrada for comer solta.

O mais legal é que ao continuar jogando estas maravilhas hoje em dia, tendo uma visão mais adulta, a história começa a despontar como uma das melhores partes dos JRPGs! As tramas abordadas nestes jogos visualmente “fofinhos”, muitas vezes surpreendem, ao entrar em assuntos como: críticas ao cristianismo e religiões em geral; aborto; gravidez na adolescência; identidade de gênero; dentre outros… Por conta disso, vários destes JRPGs chegavam bruscamente censurados no mercado americano.

“Masculino… feminino… qual a diferença? O poder é lindo, e eu tenho o poder!”

São tantas as lições que aprendi com os JRPGs. A importância da amizade em Chrono Trigger, Tales of Phantasia e Breath of Fire. A sensação de recriar o mundo do zero nos jogos da Gaia Trilogy (que você pode ouvir mais detalhes sobre, neste outro podcast) e perceber como é importante tomarmos conta de cada ser vivo no planeta, mesmo tendo consciência de que o ser humano é uma doença terminal para a Terra. Poder, Coragem e Sabedoria compõem a Triforce que nos dá energia para seguir em frente. E tem gente que ainda desmerece os videogames como cultura.

“Onde quer que vivamos, somos todos seres humanos de sangue vermelho. Todos rimos, todos choramos. Somos todos iguais. Como uma família de humanos, devemos cruzar fronteiras em amizade.” Cristovão Colombo em Terranigma!
“Armas… Se não houvesse mal neste mundo, não haveria necessidade para elas.”

Outra diferença notável dos JRPGs para os games mais simples é a presença tão ativa dos vilões principais no decorrer da história, sempre interferindo de alguma forma, até que a batalha final aconteça. Em jogos como um clássico Super Mario World você sabe que existe uma ameaça principal, mas ela está lá no final do jogo e durante o gameplay você vai enfrentar apenas os capangas desse vilão.

Para fechar com chave de ouro, que tal esse mega crossover de vários personagens clássicos dos JRPGs da época do Super Nintendo? Quem viveu boas aventuras ao lado destes carinhas, com certeza vai deixar escorrer aquela lágrima.

Eu sou o caos, senhor Kurtz, caos! E o resto do mundo não irá admitir que é exatamente como eu.       "Listen all you fools. Don't you know that Carnage rules?"