NLMP#16 – Exploração humana para seus segundos de alívio

Um dos fenômenos recentes de maior impacto no mundo do entretenimento foi a recriação das famosas locadoras de vídeo em ambiente virtual. Os serviços de streaming mudaram a forma com a qual muitos de nós vemos filmes e séries. A facilidade e a mobilidade que esses serviços geram já foram amplamente analisados e debatidos desde a emergência dos mesmos.

Algo que é pouco comentado, porém, é a possibilidade que há em se montar pequenas séries novas com o que é oferecido nessas plataformas. É claro que isso depende muito mais da capacidade de analogia do consumidor do que do serviço em si. De qualquer forma, a possibilidade existe e podemos montar novas formas de entendimento daquilo que nos é oferecido.

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“Tá, Housyemberg, mas isso tem relação com o mundo nerd?!” Sim, ignaro leitor, tem muita relação com a nerdaiada. Mais do que se imagina.

A maioria dos nerds (aliás, a maioria da sociedade ocidental) tem sua iniciação sexual através da pornografia. Esse material é tão presente na vida dos jovens que se tende a ignorar como seria a produção e os componentes ideológicos inseridos na pornografia nossa de cada dia. Muitos somente buscam uma forma de pesquisa de como agradar seus parceiros ou entendem a pornografia como o meio para se obter prazer com outra pessoa, uma espécie de tutorial de como fazer sexo e pecam justamente por entender que a pornografia leva em consideração outros aspectos de um relacionamento.

A Netflix (o serviço de streaming mais famoso da atualidade) possui algum material sobre essa temática. O interessante é que há a possibilidade de se montar uma série sobre o assunto. No momento, há cinco documentários que podem ser entendidos dessa forma. Eles mostram como a produção pornográfica reafirma conceitos ultraconservadores de nossa sociedade.

Hot girls wanted e Hot gils wanted: Turned on revelam, em se tratando de produção, como a indústria pornográfica alicia novas atrizes. Além disso, eles mostram como recentemente a produção fílmica tem diversificado os conteúdos a serem mostrados. Aqui e ali, os dois filmes mostram que, apesar da diversidade, as produtoras são pouco preocupadas com a segurança ou a saúde de atores e atrizes. No segundo documentário, há o caso de uma atriz que fora contratada para atuar e é abandonada por sua produtora porque resolveu se drogar como forma de lidar com a própria produção incessante de performances.

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O que fica claro, em diversos momentos, é que a crise financeira dos primeiros anos do século XXI possibilitou um aumento progressivo da mão de obra, ocasionando a referida falta de cuidado com o trabalhador da indústria. A forma de aliciamento, nos EUA, se dá principalmente por meio de aplicativos gratuitos em que o ator responsável pelo casting convence jovens a sair de casa para fazer uma renda extra. Fica claro que se trata de pornografia, mas não são claras as condições de trabalho, nem o cuidado que a produtora por ele representada terá com a jovem. O melhor argumento está sempre ligado ao aumento de renda financeira. O que, em tempos de crise, sempre será um argumento poderoso. Houve momentos, no primeiro documentário, em que jovens atrizes se convenceram de que os ganhos e o fato de que foram notadas geraram um aumento de sua auto estima. Ao mesmo tempo, porém, vemos as mesmas atrizes gastando todo o seu lucro no figurino (que tem de ser produzido por elas) e em formas de se manterem constantemente chapadas. Não há, por parte das produtoras, a menor preocupação com a pré-produção de seus filmes, bem como com a saúde mental dessas jovens.

Resultado de imagem para Hot girls wanted: Turned onHot girls wanted: Turned on mostra, ainda, a renovada relação com o consumidor. Percebe-se que há a vontade de se relacionar com as pessoas que fazem parte da indústria pornográfica, mas se esquecem de que uma nova relação tem suas próprias regras e que há um abismo entre o papel da atriz e sua vida pessoal. Além disso, o mesmo documentário mostra como o narcisismo do consumidor de material pornográfico interfere em encontros com outras mulheres (que não estão envolvidas com o meio pornográfico), transformando-os em verdadeiras tragédias, pois o consumidor de material pornográfico entende a si mesmo e aos outros unicamente como objetos.

A outra ponta do processo é vista em After porn ends. São dois filmes que mostram a vida da mão de obra pornográfica após sua aposentadoria. Vemos, então, algo que é muito comum nos desenhistas e roteiristas de HQ quando saem da produção incessante. Resultado de imagem para After porn ends

Há no discurso certo sentimento de traição com relação às produtoras. Aparentemente, o sentimento de ser descartável é o que une ambos. Muitos adoecem (problemas de saúde ou mesmo problemas psicológicos são relatados) e são unânimes em dizer que, nas últimas décadas, houve uma mudança com relação ao respeito, o cuidado com a produção. O mais notório em seus discursos relaciona-se com a qualidade das produções, revelando, assim, que a diminuição drástica dos custos mudou a relação entre produtoras e mão-de-obra. Para aqueles que viveram em outra época de produção pornográfica, a aposentadoria ou o afastamento foi considerado inevitável.

Os quatro documentários mostram que a indústria pornográfica passou por uma mudança radical juntamente com a emergência dos serviços de streaming. O que fica claro é que tudo o que envolve a pornografia nossa de cada dia passou por uma alteração de valores e ninguém, até o momento, soube explicar exatamente o que aconteceu. Ao ver esses filmes, fica claro ao espectador os sintomas, bem como as ilhas de resistência que ainda asseguram aos atores e atrizes certa dignidade para a realização de suas performances, mas essas ilhas, como é mostrado, estão à beira da falência – algo que deveria preocupar o consumidor desse material, mas que aparentemente é ignorado devido à própria mudança de mentalidade com relação ao elenco desses filmes.

Walter Benjamin, quando analisou as pinturas e sua reprodução incessante em qualquer meio concebível, em “A obra de arte na era da reprodutibilidade técnica”, desenvolveu uma teoria acerca da aura artística. Segundo o mesmo, a obra de arte teria uma “aura” que lhe garantiria certa veneração e certo ar de mistério, a despeito das técnicas envolvidas. Ou seja, a obra de arte teria, para ele, um aspecto de junção de probabilidades que somente ocorreriam naquele sistema histórico específico e com aquele indivíduo específico produzindo assim uma nova obra a ser apreciada pela humanidade. A capacidade que a Revolução Industrial abriu (a reprodução incessante de uma imagem em diversos meios) destrói gradativamente a “aura” desse objeto artístico. Talvez, esse conceito de Benjamin possa ser aplicado com relação à indústria pornográfica.

A pornografia como conhecemos hoje é filha da Revolução Industrial. Não há como comparar o que existia antes da emergência do cinema com o que houve durante o século XX e menos ainda com a situação atual, mas podemos situar a questão entre os anos 1980 até os dias atuais para que o leitor possa entender nosso ponto. W. Benjamin afirma que, quando há a perda de componentes da aura da obra de arte por conta da reprodução da mesma, o artista começa a ser envolto em mistério. Em Mitologias, Roland Barthes afirma basicamente a mesma coisa e vai além, mostrando que o século XX criou um novo mito para o gênio artístico – uma fusão entre o guru e o cientista louco, sendo classificado para lá ou para cá conforme o gosto pessoal do espectador. Isso pode ser aplicado aos atores e atrizes pornográficos.

A pornografia fílmica entre os anos de 1980 e 1990 envolvia um custo operacional equivalente ao de um filme hollywoodiano. Atores e atrizes eram considerados como estrelas dentro do meio, com suas próprias premiações e eventos. Neles, havia a preocupação em se mostrar os novos filmes que eram feitos por essas estrelas, bem como o estabelecimento de padrões de saúde e exames periódicos que todos deveriam fazer a fim de se habilitarem para a próxima produção. Somando a isso a dificuldade para se conseguir os filmes pornográficos por conta dos tabus inerentes à sociedade ocidental, tínhamos algo parecido com a “aura” comentada por W. Benjamin e o mito comentado por Barthes também na indústria de filmes de sexo para adultos. Nesse período, nomes como Dirk Diggler, Sylvia Saint, Rocco Siffred, Nina Hartley, Ginger Lynn, Randy West eram simplesmente venerados pelos consumidores do gênero. Uma aura de glamour envolvia esses atores e atrizes e suas produções. A partir de 2000, a emergência de novas estrelas com o mesmo glamour das décadas anteriores foi diminuindo conforme as convenções foram mudando e as produções foram se tornando mais baratas, quase que num sentido inverso do que começou a acontecer com a San Diego Comic Con.

O último filme sobre os bastidores da indústria pornográfica é Pornocracy. Ele, apesar de não estar relacionado com a produção dos outros, responde a todas as perguntas e problemas apontados pelos demais. Trata-se de uma análise da grande mudança ocorrida na primeira década de 2000 com relação à distribuição do material pornô.

Os quatro filmes anteriores focam na visão da mão de obra, na perda de glamour e nas mudanças ocorridas na produção e na relação com atores e atrizes. Pornocracy mostra como uma megacorporação foi a causadora de boa parte da mudança de mentalidade na produção de filmes – o que aumentou exponencialmente sua capacidade de reprodução e transformou a pornografia em algo descartável. O que temos, então, é a formação de um monopólio mundial de distribuição de conteúdo, tal qual como ocorrera com a participação de Donnenfeld (Homens do Amanhã) na distribuição de HQ de super-heróis nos EUA.

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O documentário mostra a mudança ocorrida nas produções – o que anteriormente mostrava-se como um ambiente no qual certo glamour cínico gerava uma aura de respeito entre financiadores, produtores, diretores e atores; torna-se um meio em que a performance é mais importante do que o bem-estar de todos os envolvidos.

Muitos veteranos saíram, pois a produção de longas, conforme os depoimentos, diminuiu drasticamente. Enquanto isso, uma nova forma ascendeu como dominante. Essa forma acabou por limitar o staff envolvido nas produções de tal maneira que a maioria dos filmes atuais possui diretor e atores, e só. A emergência dos “tubes” marcou uma enorme revolução nas formas de divulgação e de produção da pornografia. Nesse meio, uma empresa conseguiu praticamente monopolizar não os meios de produção, mas a hospedagem virtual (ou seja, a distribuição) dessa produção. Manwin, no início da primeira década do século XXI, virou a empresa por trás da maioriaResultado de imagem para Empresas tubes porn das produções existentes até aquele momento – Pornhub, babes.com, Tube 8, RedTube, Xvideos são, de fato, uma única plataforma com vários nomes. Todas essas e outras foram absorvidas pela Manwin, uma empresa que rapidamente alterou a face do conteúdo pornográfico no mundo. Se antes o fetichismo era mostrado como parte de um contexto narrativo, agora as cenas vão o mais direto possível ao ponto. Manwin se tornou a grande rota para que os tubes (como são conhecidos) dominassem a cena do cinema adulto.

Imbuídos da ótica dos anos 1990/2000, a empresa mostrava as suas propostas através de um CEO – Fabian Thylmann. Espécie de Bill Gates, Thylmann causou estranhamento na convenção da indústria de 2005 na qual expôs a visão de qual seria o novo rumo da sua masturbação. Na realidade, sua simples aparição gerou enorme alarido, pois se tratava de um ilustre desconhecido que praticamente dominou a produção de filmes num único golpe. A entrevista está disponível em qualquer site de vídeos e causou enorme estranhamento com todos aqueles envolvidos. Talvez, fora a última vez que se viu glamour e celebração da indústria pornográfica. Todos os envolvidos na sua masturbação ficaram espantados com as declarações do CEO.

A mudança foi radical. A produção de filmes teve de se adaptar ao modelo dos tubes – vídeos curtos em que a ação é o foco principal. Isso forçou pouco a pouco o barateamento das produções – o diretor, produtor executivo, câmeras e iluminação se tornam a mesma pessoa.

O que a Manwin, contudo, oferecia em troca? Hospedagem em sites HUB. Somente isso. Qualquer produtora poderia fazer o mesmo, mas a grande questão é que a Manwin comprou os principais domínios conhecidos. Domínios que os consumidores já estavam habituados, pois, inicialmente, a Manwin cortava os antigos filmes em pequenos trechos criando um mercado interessado somente no ato em si. Com essa estratégia, criou-se um monopólio, a distribuidora começou a exigir mudanças nas cenas – a reificação da mulher tornou-se cada vez mais presente. Atrizes começaram a se aposentar por não aceitarem as mudanças e os problemas acarretados por uma prática quase industrial de produção de cenas.

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As novas atrizes, com a mudança de rumos provocada, começaram a apresentar problemas graves de saúde – infecções, estresse e DST’s se espalharam em sets e equipes. Apesar do abafamento, alguns conseguiram denunciar e foram, claro, banidos do sistema. Porém, o primeiro estrago foi terrível – o CEO foi afastado e a empresa mudou seu nome para Mindgeek.

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Tudo aquilo que a empresa fundamentou como política de negócios, a Mindgeek aumentou sua potência. A maior diferença era que não havia uma pessoa na linha de frente dos negócios. Não havia, também, qualquer menção que individualizasse a relação entre produtores e distribuidores de conteúdo. Pouco a pouco, a Mindgeek forçou as produtoras a diversificar seus conteúdos, gerando abusos ainda maiores com atrizes e atores, pois, devido ao formato tube, eles deveriam gravar vários tipos de cena em um curto espaço de tempo. Agora, a empresa lançou uma nova ideia entre os produtores, vídeos de abuso sexual como uma forma de fetiche.

Impotência, problemas no órgão genital, problemas de garganta e ânus começaram a se multiplicar nos sets de filmagem, tornando o elenco praticamente rotativo – quem está bem faz, quem não que se cuide. Não há mais healthcare como nos anos 1990. Rapidamente, toda a estrutura que outrora acontecia na indústria pornográfica se desfez numa colcha de retalho de produtoras servindo a mesma distribuidora.

É nesse momento que algumas novas estrelas surgem. Não mais com o estrelato de outrora, mas essas novas celebridades alcançaram o sucesso porque começaram a controlar a produção de seu conteúdo. Dessa forma, tornou-se necessário para o casting do pornô conhecer todos os bastidores da indústria, podendo ter uma chance de se manter saudável e brilhar nas mentes daqueles que adoram uma performance. Falando de performance, a Mindgeek, além de dar ordens para os casos de abuso, começou a investir em relacionamentos inter-raciais e em falsas entrevistas para a produção de novos filmes. Esse último expandiu-se para toda uma produtora chamada FakeHub.

A partir de 2009, a empresa baixou a última de suas ordens – produção de filmes específicos para o público nerd. Esse retorno aos filmes (vídeos mais longos) sinalizou a emergência de uma nova produtora. Na realidade, uma produtora antiga que retornou à produção de filmes – com versões XXX de todos os filmes de heróis, a Mindgeek descobriu que,Resultado de imagem para mindgeek, além dos nerds, havia toda um novo mercado dentro desse nicho. O problema é que isso também sinalizou um refluxo na tendência à violência agregada ao pornô – os filmes apresentavam a tendência mais conservadora no meio. A distribuidora, então, voltou atrás em alguns pontos, mas pressionou a maior produção de cenas e esquetes voltados a atender à demanda cada vez maior de consumidores de pornografia. O motivo disso – o aumento da oferta de internet para um público com renda menor no mundo inteiro.

Apesar das denúncias realizadas em todos os filmes da Netflix, não houve, até o momento, qualquer mudança na mentalidade dos consumidores de pornografia. Talvez, o maior problema esteja naquilo que o último desses filmes afirma – enquanto se vir as produções como algo que não se deve ter empatia, a indústria acabará destruindo a si mesma. Então, talvez, o jovem mancebo e jovem donzela, comece a ver o seu pornozinho com preocupação, pois este modelo de produto, aparentemente, está com os dias contados…

Nerd de raiz, raivoso e apreciador de hidrocodona. Realmente, um ser antigo: do tempo em que Stan Lee era um autor visionário e Roy Thomas era considerado o Nerd Supremo de Quadrinhos. Professor que imagina o dia em que comprará uma van (Brasil, porra) e vai sair por aí, aprontando altas confusões.