NLMP #15 – Quer fazer? Faça direito!

O padrão de qualidade de qualquer produto deveria, segundo as regras comerciais, ser um dos critérios para a definição de seu preço. Muitas vezes vemos que determinado produto tem um valor elevado por sua qualidade ou pela qualidade de sua confecção. Da mesma forma, costumamos avaliar esse produto sob esses critérios e, em muitos casos, concordamos com o preço sugerido e adquirimos determinado produto. Regras comerciais básicas, lembram?

Salvat e Eaglemoss têm publicado encadernados de luxo com diversos personagens da Marvel e DC Comics, respectivamente. Esse luxo só está reservado ao tipo de encadernação e à forma com a qual a coleção fica na estante. Realmente um trabalho gráfico bem legal e normalmente não visto nos quadrinhos publicados por aqui. A Panini, por exemplo, vira e mexe muda o padrão de lombada de uma das suas coleções – não se sabe bem o motivo, mas todo mundo sabe que o impacto visual negativo existe.

Já as duas editoras supracitadas tentam não cometer o mesmo erro. A primeira coleção capa preta da Salvat com “A coleção oficial de Graphic Novels da Marvel” apresenta um erro na sequência das lombadas. As edições 21 e 22 apresentam duas cabeças da Tempestade, 51 e 52 a mesma parte da cabeça do Noturno, tornando a composição da imagem uma espécie de surrealismo involuntário. Mesmo a Salvat dando uma solução, fica a impressão de coisa feita nas coxas – solicitaram aos compradores das referidas edições que entrassem em contato com a editora para receber um adesivo que substituiria o erro de impressão na lombada. Um adesivo? Ou seja, o comprador receberia a ferramenta para efetuar o conserto.

A mesma coleção apresentou ainda outro erro – a edição dos clássicos dedicada à saga Guerra Kree-Skrull teve problemas de encadernação –, fazendo com que a editora relançasse o número junto com outra edição dos clássicos completamente 0800. Apesar dessas escorregadas, a editora tem o mérito de ainda manter um preço constante e algum material extra em suas edições. Material que vai além daquilo que já era conhecido pelo leitor de quadrinhos.

A Eaglemoss, por sua vez, possui, no momento em que escrevo este texto, apenas duas coleções. A primeira dedica-se a clássicos da DC Comics e a segunda dedicada somente ao Batman – Salvat apresenta três coleções: Graphic Novels (capa preta), Maiores heróis da Terra (capa vermelha) e Homem-Aranha. Algo que chama a atenção num primeiro momento é a ausência do material extra. Nas coleções da DC, o que é chamado de extra são edições antigas inseridas no tomo de cada coletânea. Assim, se tivermos uma edição do Aquaman, por exemplo, teremos, ao final, uma história antiga ou mesmo a origem do personagem. E mais nada! Nas edições de Batman – verdadeiros compêndios com um ano de publicações e a reprodução das capas originais como material extra. E só.

O problema da Eaglemoss é o aumento constante de preços. As edições aumentaram cerca de 35% desde que iniciaram as publicações regulares dos clássicos. As edições da coleção do Morcego de Gotham têm o mesmo valor desde a sua estreia – noventa golpistas. A coleção do Morcego não traz muito material inédito está republicando as histórias a partir de Terremoto (chamada de Cataclismo nessa tradução) e ainda apresenta várias edições de “Mike Deodato por um dia” com o incrível material extra de capas e mais capas.

Já que falamos de tradução, vamos tentar ser bem específicos e expor a qualidade do produto. As edições da Salvat estão ainda no poder de capital médio de um colecionador. As edições da Eaglemoss já entraram no delírio de lucro de seus donos, essas edições já se tornaram inviáveis para o público médio de quadrinhos no Brasil. A questão é que, em termos de impressão, encadernação e outros carácteres técnicos, são as edições da Salvat que podem ser consideradas artigos de luxo, pois apresentam um acabamento melhor, preço mediano e material extra com alguma qualidade. A tradução, no entanto, deixa a desejar nas duas editoras.

Todas, vou repetir, todas as edições da Salvat e da Eaglemoss apresentam erros gramaticais relevantes. Aparentemente, as revistas não passam por revisão textual, pois se trata de erros considerados como desatenção – uma concordância nominal aqui, uma regência ali, um erro de digitação acolá. Agora, se o colecionador dessas “luxuosas” edições prestar atenção na equipe de produção, verá a informação estarrecedora – todas as edições, em ambas editoras, possuem revisores! Se há revisores, por que, ao ler, não vemos o trabalho do revisor. É claro que alguns desses erros seriam perdoáveis, pois o uso da língua permite que esses existam, desde que sejam colocados em personagens que a verossimilhança permite esse uso linguístico, mas é complicado ver, por exemplo, um advogado cometendo erros de concordância.

Aparentemente, a situação é ainda pior quando se trata da Eaglemoss, pois, se houvesse revisão ou mudança no editorial, consideraríamos a mudança de preços aceitável, mas não é esse o caso. O editorial não muda, não há extras, edições são mal revisadas (em algumas, duvido muito da existência de revisão) e os preços continuam aumentando. Vão jogar a culpa na gráfica, né? Essa também é uma prática antiga das editoras brasileiras – aumenta-se o preço de um material questionável e coloca-se a culpa na linha de produção, não no aumento de qualidade do produto (porque isso non ecxiste)…

Não vamos colocar o nome dos revisores, tampouco expor seus erros, esse é um trabalho do editor de cada volume. Não se trata somente de um problema de revisão de texto, mas de um problema do editorial das publicações. A Salvat mantém, a duras penas, um valor justo ao consumidor por um produto questionável – até mesmo o material extra apresenta problemas gramaticais importantes, tornando a leitura desse material por vezes um exercício de reconhecimento de suas inadequações. A Eaglemoss mostra um lado ainda mais perverso, pois rememora aquilo que há de pior nas políticas editoriais brasileiras – aumentos constantes e abusivos, tornando quase inviável colecionar as edições.

Há, no Facebook, campanhas de boicote relacionadas a essas coleções. O triste disso é que o leitor não se importa muito com os problemas gramaticais, somente com os preços. A qualidade do material do miolo não interessa ao leitor mediano não interessa mesmo – as discussões nesses grupos giram em torno do preço e do recorte temporal na escolha das coletâneas, mas ninguém, até o momento, trouxe à baila a questão do texto apresentado nas edições.

Uma nota interessante é que o material é de suma importância ao pesquisador de quadrinhos, pois é notável como as duas editoras não têm respondido a certas questões, enquanto que outras são respondidas de maneira rápida. Qualquer dúvida acerca de um novo número ou das escolhas das histórias, é respondido como se fosse uma corrida do Flash, mas, se o consumidor pergunta sobre a revisão textual, questões de gramática concernentes ao material apresentado ou mesmo escolhas de tradução, não há resposta, resta o silêncio de Darkseid.

Felizes dias para o leitor de quadrinhos com a fartura de coletâneas, mas triste dia ao leitor de quadrinhos que tem recebido Cavalos de Tróia consecutivos.

Nerd de raiz, raivoso e apreciador de hidrocodona. Realmente, um ser antigo: do tempo em que Stan Lee era um autor visionário e Roy Thomas era considerado o Nerd Supremo de Quadrinhos. Professor que imagina o dia em que comprará uma van (Brasil, porra) e vai sair por aí, aprontando altas confusões.
  • Vilipendiador Unperucked

    Cabe um adendo:
    A Salvat foi procurada por nós, Iluminerds, em dois momentos. Primeiro para divulgar e falar sobre a primeira série, Graphic Novels (de capa preta) pois na época do anúncio causou bastante empolgação.
    Tempos depois foi convidada novamente, agora para falar também do problema com as lombadas. Seria até uma forma de tranquilizar aqueles que compravam e que, até o momento, não sabiam como seria resolvido e até ameaçavam para de comprar.

    em ambos os convites fomos sumariamente igonarados.
    Vou repetir, IGNORADOS. Sequer fomos respondidos com um “não, obrigado”.
    Reflexos da relação entre empresas x consumidores por estas bandas.