Mulher-Maravilha: 75 anos e mais um segredo!

Ainda que a Mulher-Maravilha faça parte do inconsciente coletivo de pessoas de todas as idades há décadas, eventualmente um novo fato é adicionado à sua história, seja na ficção ou na vida de seu controverso criador William Moulton Marston.

Diana, nesses 75 anos, teve não só sua origem recontada diversas vezes, como também sofreu alterações em suas características básicas. Por isso, não faltam livros, teorias, análises sobre sua trajetória, seja como uma personagem de quadrinhos ou como o ícone feminista de narrativa fetichista idealizado por Moulton :

Desenhe uma mulher que seja tão poderosa quanto o Superman, tão sexy como Miss Fury, tão sumariamente vestida como Sheena, a rainha da selva, e tão patriota quanto o Capitão América.

Uma das últimas publicações sobre ela é o livro de Jill Lepore – A História Secreta da Mulher-Maravilha, com lançamento em 26 de junho no Brasil, promete desvendar um grande segredo acerca da origem da Mulher-Maravilha e que seria capaz de abalar seu universo de forma realmente impactante. Lepore começa lembrando que, como todo super-herói, a MM tem uma identidade secreta, mas, ao contrário dos super-heróis, ela também tem uma história secreta, resultado de décadas de pesquisa em arquivos pessoais do próprio William Moulton, além de bibliotecas e coleções de museus. Entre os arquivos pessoais do renomado psicólogo e criador do polígrafo, Lepore encontrou diários, registros médicos, intimações legais, transcrições e cartas que indicariam a vida pregressa de Diana.

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A autora, para contar sobre este segredo, nos situa nos anos 1940 e fornece o contexto pelo qual é possível entender que este grande segredo – embora hoje talvez não seja tão polêmico – poderia ter significado o fim da publicação da nossa heroína e provavelmente a prisão de Moulton.

Lepore, por esse motivo, indica que a MM não seria apenas uma amazona, mas certamente é o elo perdido entre eventos que começaram com a campanha sufragista nos anos 1910 e terminam no século seguinte com as questões feministas. “O feminismo fez a Mulher-Maravilha”, afirma, e a Mulher-Maravilha reinventou o feminismo, ainda que não necessariamente isso signifique algo totalmente positivo, pois, para a pesquisadora de Harvard, os heróis são ótimos em se disfarçar, mas péssimos quando se trata de lutar por igualdade.

Se por um lado Superman deve sua origem a conceitos de ficção científica e o Batman às histórias de detetive noir, a Mulher-Maravilha tem em sua origem muito mais que questões ligadas aos quadrinhos – ela apresenta em suas origens uma utopia feminista e a luta pelos direitos das mulheres, bem como protestos sufragistas, relacionamentos controversos e uma clínica de aborto.

Lepore narra, para que possamos entender a relação da personagem com a clínica de aborto, a vida de Moulton desde a tenra infância, apresentando inclusive fotos do menino precoce entre suas irmãs e situando o leitor na medida em que ele cresce e vai para a faculdade aos 18 anos, quando é aceito em Harvard.

Marston aos 18 anos

Moulton, de acordo com notas encontradas pela pesquisadora, havia decidido que aos 18 anos deveria morrer e por isso engoliria uma cápsula de cianureto. Porém, com uma revolução acontecendo diante de seus olhos liderada pela sufragista Emmeline Pankhurst, Moulton repensou sua decisão e resolveu prestar os exames, acreditando que iria mal nas provas, pois não havia se interessado pelas disciplinas até então.

Pankhurst sendo presa em Londres

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Pankhurst deixou uma impressão muito forte na lembrança de Moulton: aquela mulher que fora presa e proibida de falar no campus, inspirou mulheres a se acorrentarem nas cercas de metal da delegacia. Três décadas depois, ele então cria uma heroína que luta pelos direitos das mulheres e cuja única fraqueza é a perda de toda força caso seja acorrentada por um homem. Curiosamente, o primeiro vilão que a Mulher Maravilha enfrenta, é um químico que estaria desenvolvendo uma bomba de cianureto – Dr. Poison (Dr. Veneno).

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Em 1912, Margarth Sanger, uma enfermeira feminista que viu sua cunhada morrer aos 48 anos após ter dado a luz 18 vezes em 22 anos, escreveu uma série dividida em 12 partes para o jornal socialista New Yorl Call. Na série intitulada Woman Rebel, Sanger explicava porque as mulheres estavam revoltadas e discorria sobre doenças venéreas, masturbação feminina, contracepção e aborto. Seu intuito era expor as amarras e servidão (bondage) impostas pela maternidade. Em 1916, ela abre a primeira clínica de aborto dos Estados Unidos e vai presa pela divulgação de métodos contraceptivos.

Sanger

E qual a ligação de Sanger com a Mulher-Maravilha? Quando Max Gaines convidou William Moulton para ser consultor de sua editora, o fez pensando em evitar controvérsias que começavam a surgir sobre a violência nos quadrinhos. Gaines conheceu Moulton por meio de um artigo que o renomado psicólogo havia escrito em defesa das HQ. Moulton, que já havia sido consultor da Universal Pictures, chamou H. G. Peter para desenhar a história de uma nova heroína, que, embora tenha alcançado sucesso entre homens e mulheres de diversas gerações tão logo foi lançada, carregava por trás de sua criação um passado tão controverso que, caso chegasse ao conhecimento de seus editores e de seu público, seria banida para sempre das bancas de jornais.

Olive Byrne fazendo anotações

Gaines não sabia na época da bigamia de Moulton – casado com a advogada Sadie Elizabeth Holloway, se envolveu com uma de suas estudantes e a levou para morar em sua casa. Olive Byrne, apresentada como uma cunhada viúva de Moulton, era sobrinha de Margareth Sanger, literalmente uma feminista abortista. No início do século passado, o aborto era proibido nos Estados Unidos, assim como ainda é em muitos estados e países sendo, portanto, passível de prisão.

Não bastando sua estranha relação com as esposas (as duas tiveram dois filhos cada e continuaram vivendo juntas após a morte do marido em 1947), Moulton era frequentemente interrogado por estudantes, repórteres e até mesmo pelo FBI quanto aos elementos nitidamente sadomasoquistas contidos nas histórias. Seu filho mais velho, quando questionado sobre o assunto por Lepore, é enfático ao dizer que nunca presenciou um único evento que indicasse tais práticas em sua casa. Os filhos de Olive Byrne não souberam que seu pai era William Marston até 1963, quando Holloway os contou.

Para aumentar ainda mais as preocupações de Gaines acerca de elementos pervertidos nas histórias da Mulher Maravilha, um sargento do exército americano escreveu uma carta em que confessava sua excitação sexual ao ler as histórias da princesa das amazonas e perguntava se o autor dispunha em sua casa dos mesmos objetos tão detalhadamente apresentados nas HQ:

Eu sou um desses homens estranhos, talvez desafortunados, que obtêm extremo prazer erótico meramente ao pensar em uma linda mulher, acorrentada, ou atada, ou usando uma máscara, ou usando saltos extremamente altos ou botas cano alto com cadarço, de fato, qualquer tipo de constrição ou tensão seja qual for.

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Obviamente, essa história perturbou todo corpo editorial da Mulher-Maravilha, que possuía uma mulher entre ele e que rapidamente elencou uma lista de maneiras de se conter uma heroína sem que fosse necessário o uso de cordas e correntes. A ideia era que Moulton conseguisse diminuir de 50 a 75% dos elementos considerados pervertidos sem que isso afetasse as vendas ou mesmo a emoção do público. Moulton rapidamente respondeu ao apelo da então consultora Roubicek:

Estou com a singela carta do sargento na qual ele expressa o seu entusiasmo sobre o acorrentamento de mulheres – e daí? Um dia farei uma lista de todos os itens sobre mulheres que são conhecidos como bem excitantes para diferentes pessoas: cabelos, botas, cintos, artigos de seda, luvas, meias, ligas, calcinhas, as costas nuas, seios suados. Acredite, você não pode ter uma personagem feminina de verdade em qualquer forma de ficção sem desencadear as fantasias eróticas de um número grande de leitores. O que é ótimo, eu diria.

Ainda que sua bigamia e a alusão ao sadomasoquismo (BDSM) nas histórias talvez não caracterizem necessariamente um escândalo hoje, todos esses elementos mencionados, caso viessem a público nos anos 1940 teriam certamente destruído a Mulher-Maravilha.

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Mesmo assim, os encontros e coincidências não se limitam a Moulton – H. G. Peter foi escolhido a dedo para desenhar a amazona. Nos anos 1910, o desenhista fez parte da equipe artística da revista Judge e contribuiu para a página sufragista The Modern Woman, que também era ilustrada por Lou Rogers, posteriormente contratada por Sanger como diretora de arte da revista de controle contraceptivo Birth Control Review. Entre as ilustrações contumazes presentes em páginas sufragistas, estavam mulheres se libertando de correntes, evento recorrente nas HQ da Mulher-Maravilha. Na visão de Sanger, a mulher “estava acorrentada ao seu papel na sociedade e na família, através da maternidade, e que somente correntes fortes como aquelas poderiam ter ligado ela ao seu destino de animal reprodutor”. Entre outras coisas que Sanger defendia e as quais Moulton admirava, estava o direito da mulher ao prazer e ao conhecimento de seu próprio corpo, desvinculado da função meramente reprodutiva.

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Sanger recebeu, com o sucesso de sua revista, cartas de leitoras que se diziam sentir literalmente acorrentadas, o que teria inspirado a ilustração de Rogers para uma das capas e que retratava uma mulher de joelhos, desesperada, acorrentada pelo tornozelo a uma bola de ferro que dizia “Bebês Indesejados”. Posteriormente, estes depoimentos serviriam de base para o livro que Sanger lançou em 1928 com o título Motherhood in Bondage, sugerindo o encarceramento das mulheres pela maternidade.

Não à toa, Sanger é considerada por Lepore uma das grandes influências na concepção da Mulher-Maravilha até pouco tempo limitada às esposas de seu criador. Por isso também, não é de se estranhar que as feministas como Gloria Steinem e Trina Robbins, que desenhou Diana em algumas edições, tenham abraçado a personagem como um grande ícone feminista.

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Se por um lado alguns teóricos focam nos aspectos negativos atribuídos aos elementos sadomasoquistas nas HQ da Mulher-Maravilha, o fato é que Moulton soube balancear estes elementos com a narrativa de uma mulher poderosa e independente, de tal forma que outros roteiristas depois não conseguiram repetir. Após a morte de Moulton em 1947, alusões a qualquer tipo de perversão foram retiradas e as vendas da publicação caíram drasticamente. Apesar das controvérsias acerca de certos temas, Moulton acreditava na superioridade emocional das mulheres e em seu potencial para amenizar situações de conflito.

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Nos anos seguintes, com o retrocesso (backlash) sofrido pelas mulheres e a tentativa de socialização da mulher como “bela, recatada e do lar”, as HQ refletiram esse contexto e histórias como Millie the Model e Archie vendiam um estereótipo que não condizia com o perfil das amazonas de Moulton. Por isso, a Mulher Maravilha passou a ser mais romântica e até mesmo ciumenta em relação a Steve Trevor.

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Este retrocesso perdurou até o início dos anos 1970, quando a segunda onda feminista lutou pela liberação feminina, resultando em aberrações como as edições sob o comando de Denny O’Neil em que ela perde seus poderes e vira dona de boutique. Nessa fase, Diana combate o crime sob a tutela do mentor I Ching em histórias inspiradas nas aventuras de James Bond.

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Um dos ressurgimentos da Mulher-Maravilha acontece com a publicação feminista Ms. Magazine trazendo a amazona na capa e, posteriormente, com o lançamento da série de TV estrelada por Lynda Carter nos anos 1970.

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Nossa heroína, de lá pra cá, teve altos e baixos. Revitalizada nos anos 1980 por George Perez, teve sua popularidade aumentada com os desenhos animados dos Superamigos. Nos anos 1990, de acordo com os fãs mais fervorosos, pouca coisa se salva, mas essa foi uma década ruim para os super-heróis de uma forma geral.

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No entanto, com o Novos 52 de Brian Azzarelo e Cliff Chiang, MM surge mais poderosa que nunca para resolver conflitos mitológicos envolvendo todo o Olimpo e tem sua origem recontada mais uma vez.

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Recentemente interpretada no cinema por Gal Gadot em Batman vs Superman, a Mulher Maravilha finalmente estreia nos cinemas em junho de 2017 e com o lançamento de Earth One – Wonder Woman, Grant Morrison, fã do trabalho de Moulton que diz tentar resgatar a heroína original de seu criador, podemos dizer que aos 75 anos de idade a amazona é mais atual que nunca. Que venham mais 75! Parabéns, Diana!

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Ficha técnica:

A História Secreta da Mulher-Maravilha(Português) Capa Comum – 26 jun 2017

  • Capa comum: 480 páginas
  • Editora: Best Seller (26 de junho de 2017)
  • Idioma: Português
  • ISBN-10: 8546500371
  • ISBN-13: 978-8546500376
  • Dimensões do produto: 23 x 16 x 3,1 cm
Dani Marino
Dani Marino é pesquisadora de Quadrinhos, integrante do Observatório de Quadrinhos da ECA/USP e da Associação de Pesquisadores em Arte Sequencial - ASPAS. Formada em Letras, com habilitação Português/Inglês, atualmente cursa o Mestrado em Comunicação na Escola de Artes e Comunicação da USP. Também colabora com outros sites de cultura pop e quadrinhos como o Minas Nerds, Quadro-a-Quadro, entre outros.
  • Giovani Coelho de Souza

    Excelente matéria, o Moulton, por exemplo, me parece ter sido um ser humano muito interessante e à frente do tempo retrógrado dele. Me animou saber que o Grant Morrison vai retornar ao ambiente original da concepção da personagem, algo que pode vir a acrescentar muito à mesma.

    “Bela, recatada e do lar”: citação hilária!😂😂😂

    • Daniela

      Sabe que tenho a mesma impressão sobre o Moulton? Tinha umas idéias muito à frente de seu tempo. A Mulher Maravilha jamais seria quem é se ele não a tivesse criado. Fico feliz que tenha curtido o texto. Obrigada

    • 0-Drix

      O vejo menos como alguém a frente do seu tempo e mais como alguém às margens do status quo de sua época.

  • AzBats

    Devo dizer que gosto de uma fase em específico dos anos noventa: a passagem de Mike Deodato pelo título com a subsequente substituição de Diana por Artemis. Seja pelo visual da heroína, seja pelo conceito (uma versão mais violente e “mais adequada a novos tempos”, assim como aconteceu com Jean Paul Valley, vulgo Azrael, substituindo Bruce Wayne como Batman) ou quanto a rainha Hipolyta estaria disposta a ir para proteger a filha.

    • 0-Drix

      Após a Crise nas Infinitas Terras, o título da Mulher Maravilha passa por uma situação parecida com a do Demolidor na Marvel, no mesmo período de tempo: alternância entre sagas memoráveis (comandadas por uma equipe criativa de ponta) e momentos totalmente esquecíveis!

  • Marcos Maia

    Para ver uma versão em vídeo dessa biografia narrada pela própria Dani Marino:
    https://www.youtube.com/watch?v=R5GtRpZSeHE

  • Mauricio Zanolini

    Parabéns pelo texto Dani! Muito bom!

    • Daniela

      Obrigada! 😃

  • Leticia Gabriele

    aonde da para comprar esse livro traduzido ???

    • Letícia, esse livro será lançado no Brasil em maio deste ano. Só aguardar. 😉