Laudo: o cara da História em histórias em quadrinhos

(Foto: Alexandre Santos)

Ainda me lembro como se fosse ontem quando meu marido Edson Rossatto me mostrou sua HQ História do Brasil em Quadrinhos. Eu sabia que ele era o roteirista, mas ainda não tinha ideia de quem eram os tais Laudo e Omar que estavam também com os nomes estampados na capa.

Foi na Fest Comix onde tive a oportunidade de conhecê-los. Ainda aqui não tinha ideia de que estava diante do roteirista e desenhista de umas das HQs brasileiras mais belas já publicadas: “Yeshuah”, disponível em três volumes.

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Merecidamente, por seus trabalhos, Laudo já levou vários prêmios Angelo Agostini e HQMIX. Yeshuah, publicada pela Devir, já o congratulou com alguns destes prêmios e, no Festival Guia dos Quadrinhos (2016), Laudo foi o roteirista homenageado, expondo mais de vinte originais, além de revelar sua edição única e especial publicada em capa dura de “Yeshua Absoluto”. Abaixo, confira a entrevista exclusiva com o Laudo:

Paola: Laudo, você diz que começou sua carreira nos anos 80. Como eram as primeiras fanzines que você produzia?

Laudo: Na realidade, meus primeiros trabalhos publicados, no início dos anos 80, foram através de uma editora chamada Press Editorial, que publicava muito quadrinhos de terror, aventura e erótico. Na ocasião, desenhei muito quadrinho erótico, que é o que o pessoal da casa passava pros novatos fazerem. Com o fechamento desta editora, lá por volta de 1985, é que então descobri os fanzines. Nunca produzi o meu próprio, mas participei de uma centena, durante muito tempo, acredito que isso foi até início dos anos 90.

Nesse período de participação do movimento fanzineiro, se é que pode chama-lo de “movimento”, fiz muitos amigos, muitos, uma maioria ainda hoje mantenho contato, pessoalmente ou via internet. Naquele período não existia gráficas fáceis, de preços acessíveis, como hoje em dia, então, tudo era rodado no xerox mesmo e muitos, em cópias de qualidade duvidosa. A transação de venda, ou troca, o que era mais comum, era toda feita via correios, algo incrível, pois muitas vezes chegava em casa, no final do dia (trabalhava de empregado, então) e tinha lá uma pilha com vinte, trinta cartas, envelopes, do Brasil todo: Rio Grande do Sul, Ceará, Mato Grosso, Bahia, Belo Horizonte, todo canto.

Hoje em dia, para a nova geração que não viveu esse período e tem toda a acessibilidade do mundo através da internet, talvez seja difícil de imaginar a logística toda, mas funcionava e gerou muita coisa e fez bagunça.

Paola: Em relação a adaptação para quadrinhos do filme À Meia-Noite Levarei a Sua Alma, de José Mojica Marins, você ainda vê espaço para uma cena de quadrinhos de terror como o de décadas passadas? Por quê?

Laudo: Claro que sim. Não aquele terror produzido aqui no Brasil, de 50/40/30 anos atrás, por mestres como Rodolfo Zalla, Eugênio Colonesse, Shimamoto, Nico Rosso e por aí vai. Um terror até certo ponto inocente, como eram alguns filmes de terror dessa época, se comparados a muita coisa feita hoje em dia. O terror, seja lá a forma que for contada, sempre terá espaço no imaginário do leitor, pois mexe com um elemento poderosíssimo do ser humano que é o medo, e o medo do desconhecido. Então, o gênero pode sofrer reformulações, ficar menos psicológico, ou gótico e estar mais para o nojento, o aflitivo, o gore, mas estará presente. Filmes como “O exorcista”, que possuem lá seus quarenta anos, ainda promovem muitos sustos na meninada.

Aqui no Brasil, você tem publicações recentes de terror, mesmo que trabalhando com mais humor, ou mais violência e até  crítica social e política, como “São Paulo dos Mortos” do Daniel Esteves, “Beladona” da Ana Recalde e Denis Melo, os quadrinhos de terror do Kico Comics, o Flavio Luiz, que embora não seja muito um gênero que trabalhe, recentemente lançou “Três Histórias de terror e uma nem tanto”, então isso mostra que há muito fôlego pro quadrinho de terror.

Paola: Você alguma vez tentou ingressar no mercado internacional de quadrinhos? O que determinou a sua jornada com o Omar Viñole no Estúdio Banda Desenhada?

Laudo: Inúmeras vezes pensei, o que falta é tempo para estudar possibilidades e investir direito. Não paro, estou sempre ligado a três, quatro coisas simultaneamente, além do trabalho de ilustrador e professor. Mas ando armando algumas coisas aí fora, vamos ver o que acontece.

Já minha parceria com o Omar e o Estúdio Banda Desenhada, símbolo dessa nossa parceria, fomos indo, como se diz. Começamos a trabalhar em 1996, esse ano, por sinal, completamos vinte anos de parceria. Quando chamei ele inicialmente, foi para arte-finalizar a segunda hq do Zé do Caixão, que estava adaptando, “Esta noite encarnarei em teu cadáver”, e as coisas foram acontecendo. Então, naturalmente, trabalhos, projetos de hq’s. Entramos nos anos 2000, produzindo a série de hq’s da personagem Tianinha, e paralelamente o Yeshuah, e fomos indo.

Mudamos um pouco o ritmo de nossos trabalhos nos últimos tempos, o que é importante e fundamental, o Omar tem trabalhado com outros artistas, e eu feito minhas coisas, às vezes com outros parceiros, como foi recentemente com o Marcatti  (“Dedos Mágicos”) e o Alexandre Santos (“Questão de Karma”). Passei a voltar a arte-finalizar meus desenhos, pois sentia essa necessidade e o Omar, caiu matando na colorização de minhas histórias, coisa que executa com tremenda maestria,  complementando perfeitamente meus trabalhos. Fora tudo isso, o Omar tem a produção de suas tirinhas do Coelho Nero, que é um tremendo sucesso na internet.

Enfim, as coisas começaram sem muita programação, foram indo ao longo desses vinte anos, e vamos ver o que virá pela frente, mas o importante dizer é que, além de um querido amigo, é o meu parceiro que mais conhece os caminhos por quais minhas hq’s, tanto no roteiro, como nos desenhos, seguem.

Paola: Yeshuah é uma das HQs que mais gosto nessa sua parceria com o Omar. Como foi que nasceu a ideia de fazer uma história bíblica?

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Laudo: A questão da busca, do entendimento de muitas questões que permeiam a nossa humanidade, sempre foi uma constante nos meus quadrinhos. Trabalhos antigos, como “O duelo”, uma graphic novel independente que lancei em 1992, já tratava de questões sobre fé, Deus, diabo… A minissérie “Depois da meia-noite”, que embora tivesse uma trama policial, tinha umas pitadas de misticismo e coisas assim. Essas coisas todas, esse “entender” a realidade, é algo que veio crescendo comigo ao longo dos anos e ainda está em crescimento. Daí que, no final dos anos 90, veio a ideia muito forte de contar a história de Jesus dentro de uma perspectiva realista, humana, sem cair nos estereótipos de sátiras, deboches à sua figura. A intenção provocativa viria vestida de uma forma mais madura, mais introspectiva. Não uma provocação com ares de contestação juvenil, mas com o questionamento de quem não desacredita na figura em si, mas condena todo establishment criado. Aliado a tudo isso, existia a intenção de contar a história linearmente, como uma grande saga, com personagens que convencessem o leitor e os tirassem dos padrões já estabelecidos pela igreja. O estudo de muitas outras religiões, como hinduísmo, islamismo, judaísmo, ou outras vertentes, como a teosofia e mesmo o xamanismo, foram formatando profundas interpretações e entendimentos, o qual muita coisa está espalhada nas quinhentas páginas de todo o Yeshuah.

Paola: Você se deparou algumas vezes com opiniões de religiosos contestando o seu roteiro ou personagem? Como foi isso?

Laudo: Alguns casos. Houve evangélicos que me atacaram ferozmente, mas houve evangélicos que adoraram a obra. Muitos cristãos, católicos, não entenderam nem entrevistas que dei, distorcendo muita coisa que eu disse. Todo mundo tem sua visão de Jesus e isso é muito profundo.  Quando se fala que, a hora que realmente encontrarmos Deus, a nossa verdade única, nosso amor absoluto, incondicional, não precisaremos mais rezar, nem viver pedindo, implorando coisas a um Deus que sabe lá onde está, se não está inteiro dentro do único lugar possível, dentro de si, muita gente pode te chamar de ateu, de herege, blasfemador, essas coisas todas, mas é a pura realidade.

Não sou daqueles que acha que as religiões estão aí para enganar as pessoas, nada disso, as religiões estão aí para mostrar o que é o ser humano, de bom e de ruim, ela deixa isso muito claro, tem deixado muito evidente ao longo dos séculos. Óbvio, “Deus”, não tem nada a ver com isso. Deus é uma invenção humana. Deus não se pode medir dentro do termo “ ser”, pois ser está dentro de um plano de existência, o qual  nós humanos, estamos. Deus, o criador, o todo, deve estar fora disso. São Tomás de Aquino, falava isso muito bem, quando dizia que não cabe à criatura querer entender o criador.

Mas voltando ao Yeshuah, apesar dessas histórias de não entendimento que mencionei, a obra em si foi muito bem aceita e apreciada. Não fosse assim, a editora Devir não teria investido no belíssimo “Yeshuah absoluto” que compila os três livros da série.

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Paola: Você diz que levou 13 anos para produzir Yeshuah. Qual foi a sua maior motivação para começar e concluir a trilogia?

Laudo: A certeza que estava fazendo um bom trabalho. Que nele estava o melhor de mim. Carregado de toda a verdade que um artista pode carregar e construir numa obra e o principal, a intensa vontade de compartilhar isso com os leitores.

Paola: Como foi o processo de publicação da primeira edição de Yeshuah? Houve dificuldades?

Laudo: Muitas. Muita coisa não me recordo agora. Mas houve muita falta de entendimento do que se tratava por algumas editoras que andei. Essa coisa de não ser uma quadrinho religioso em si e nem satirizar a figura de Jesus. O que é isso, então? Houve muito disso, lá pelos meados dos anos 2000, quando comecei a bater em algumas casas para tentar viabilizar o projeto. Há um certo preconceito também, do meio intelectual, artístico, pois fazer uma história de Jesus, sem atacar a instituição católica, está fora dos padrões, digamos assim. Aquela questão de provocação juvenil que citei acima.

Houve porém algumas editoras por fim, que entenderam a proposta, e se habilitaram a publicar, mas a questão toda se concretizou com a Devir, por uma afinidade mesmo. Imediata.

Paola: Gosto muito do seu estilo de desenho. Como você chegou nele?

Laudo: Inicialmente, buscava um estilo realista, gostava muito dessa linha. Trabalhava com referências fotográficas direto e a minha página de quadrinhos, era totalmente gerada em cima disso. Aí, houve um período, isso lá pelo final dos anos 90, que comecei a me cansar dessa busca por referências para se criar uma página e, principalmente comecei a perceber que, sacrificava  muita ideia de cena boa, por não ter a respectiva referência fotográfica, o que ocasionava então, numa ideia de cena mais fraca, menor. Por fim, a coisa de ter o papel em branco na frente e o lápis na mão e as ideias na cabeça, estavam muito fortes em mim.

Quando entrou em 2000, André Diniz, roteirista, me convidou para produzirmos a continuação de seu álbum “Subversivos”, que ele havia feito um tempo antes. Foi nesse trabalho que resolvi fazer tudo de uma maneira solta e livre das “prisões” da referência. Lembro-me ainda hoje o quão incrível foi ter a sensação de infinitas possibilidades para se criar, desenhar uma hq. Havia botado o ovo em pé. Logo em seguida, comecei a trabalhar nos desenhos de Yeshuah, já dentro desse espírito.

Na realidade, meu desenho busca a expressão, a vida, o sentimento, extrair isso dos traços, dos closes, das bocas desenhadas. Um eterno exercício.

Paola: Que conselhos o Laudo de hoje daria para o Laudo no início de sua carreira?

Laudo: Vamos adiante!

Laudo estará com seu Yeshuah Absoluto dia 14 de maio (sábado) às 15h em sessão de autógrafos na Livraria Blooks do Shopping Frei Caneca.

Para mais informações acesse a entrevista:

Paola Giometti nasceu em São Paulo, Capital, em 1983. É graduada em Biologia, mestre e doutoranda em Ciências. Colaborou com a Revista Mundo dos Super-heróis na edição 57 com uma matéria sobre o papel da mulher nos quadrinhos. Em eventos sobre a cultura nerd, Paola é cosplayer da personagem Lara Croft, sua heroína nos games e hqs desde a infância. Publicou o livro O Destino do Lobo, primeiro volume da série Fábulas da Terra, além de ter participado das coletâneas literárias Xeque-mate, Horas Sombrias, Aquarela, Círculo do Medo, King Edgar Hotel, Legado de Sangue, Outrora e Sede, todas da Andross Editora. Paola não só participou com contos das coletâneas Outrora e Sede como também foi a organizadora dessas antologias.