Ilumimúsica – Sunday Morning Call, do Oasis

Música tão boa quanto o vídeo!

Em 1997, o Oasis era a banda mais influente  e bem sucedida do chamado britpop, que trouxe de volta ao grande público o rock britânico depois de um período em segundo plano, principalmente devido ao estouro comercial do grunge de Seattle. Eles tinham o poder e trilhavam a estrada de tijolos amarelos depois de um grande álbum de estréia (Definitely Maybe, 1994) e do estrondoso sucesso comercial e de crítica pelo segundo trabalho, (What’s the Story) Morning Glory, de 1995. Junto com o êxito, no entanto, veio o agravamento das tensões entre os irmãos Gallagher, Noel e Liam, cinco anos mais novo que o primeiro.

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O Oasis surgiu em 1991, quando o guitarrista Paul “Bonehead” Arthurs e o baixista Paul “Guigsy” McGuigan chamaram Liam Gallagher para substituir o vocalista da banda deles, chamada The Rain. O novo cantor encrencou com o nome do grupo, considerado pouco comercial e “afrescalhado” e sugeriu que mudassem para Oasis. Segundo a lenda, a ideia veio de um pôster de uma turnê do Inspiral Carpets (banda de rock alternativo que contava com Noel Gallagher nos bastidores) que havia no quarto dos irmãos Gallagher, onde um dos locais assinalados era Oasis Leisure Centre, em Swindon, Wiltshire, sudoeste da Inglaterra. O primeiro show da nova banda foi em agosto daquele ano e teve o irmão mais velho como espectador. Apesar de ter achado a performance ruim, Noel enxergou potencial e entrou pro Oasis, com as condições de que seria o líder e único compositor do material do grupo.

O comportamento antipático de Liam Gallagher com outros artistas e sua agressividade com a imprensa ajudam a entender porque não foi sem uma certa dose de satisfação que, após uma recepção inicial calorosa, boa parte da crítica musical estraçalhou o álbum Be Here Now, de 1997, ainda que sem conseguir atrapalhar o seu sucesso comercial: mais de dezessete milhões de cópias vendidas. Mesmo assim, esperou-se que a banda abandonasse os “desvios” e voltasse a investir na fórmula pop de antes, com letras mais diretas, arranjos mais simples e canções menos extensas.

Apesar de toda a polêmica que provocavam com outros artistas e com a imprensa, nada rendia mais do que as brigas entre os próprios Gallagher. Só em 1996, duas atitudes ridículas mostraram o estado das coisas entre as duas figuras centrais do Oasis. No MTV Umplugged, pouco antes de subirem ao palco, Liam se recusou a entrar, alegando uma dor de garganta. Moel - que entrou com a banda e fez todos os vocais - depois afirmou que o caçula tinha acompanhado toda a apresentação de um pub, cercado de charutos, cigarros e cerveja, e que não tinha feito a apresentação por não gostar do formato acústico. Pouco depois, eles partiram para a turnê nos Estados Unidos e Liam, mais uma vez, se recusou a ir, alegando que prcisava de um tempo para comprar uma casa. Noel foi e assumiu, mais uma vez todos os vocais, até que Liam resolveu se juntar ao grupo. Tudo resolvido? Não, porque aí foi Noel que resolveu apanhar um voo e voltar pra casa.
Apesar de toda a polêmica que provocavam com outros artistas e com a imprensa, nada rendia mais do que as brigas entre os próprios Gallagher. Só em 1996, duas atitudes ridículas mostraram o estado das coisas entre as duas figuras centrais do Oasis. No MTV Unplugged, pouco antes de subirem ao palco, Liam se recusou a entrar, dando como desculpa uma repentina dor de garganta. Noel – que teve que fazer todos os vocais – depois afirmou que o caçula tinha acompanhado toda a apresentação de um pub, cercado de charutos, cigarros e cerveja, e que não se apresentou por não gostar do formato acústico. Pouco depois, o Oasis partiu para a turnê nos Estados Unidos e Liam, mais uma vez, se recusou a ir, dizendo que precisava de um tempo para comprar uma casa. Noel assumiu, de novo, os vocais, até que Liam resolveu se juntar ao grupo. Tudo resolvido? Não, porque aí foi o irmão mais velho que resolveu apanhar um voo e voltar pra casa. Claro que os irmãos também não “ignoravam” os outros integrantes. Tony McCarroll, primeiro baterista do grupo, pediu pra sair depois do álbum de estréia, alegando “conflitos de personalidade” com Noel. Foi substituído por Alan White, sobrinho de um amigo do compositor. No início das gravações de Standing on the Shoulder of Giants, foi a vez dos dois outros “fundadores” do Oasis saírem da banda, Paul Bonehead e Paul Guigsy. Ambos alegaram que gostariam de passar mais tempo com suas respectivas famílias, mas correram versões de que Noel expulsou Bonehead por causa do seu vício em drogas.

Muito pelo contrário, Standing on the Shoulder of Giants traz mais do que um simples flerte com a música eletrônica e a psicodelia. Noel Gallagher e o produtor Mark “Spike” Stent se esforçaram para fazer os arranjos mais trabalhados, à ponto deste ser taxado como o projeto mais “experimental” do grupo. Tanto na sonoridade como nas letras, o álbum difere do estilo predominante do trabalho do Oasis até então, passando um peso e uma negatividade apenas arranhados em algumas canções anteriores. A baixa vendagem, sintomaticamente, marcou o início de um processo de baixa aceitação dos trabalhos de estúdio da banda (confirmado pelas críticas tremendamente negativas e as vendas pífias do trabalho seguinte, Heathen Chemistry, de 2002).

Noel Gallagher viu escrito em um dos lados de uma moeda a citação "Se posso enxergar mais longe do que os outros, é porque stou apoiado nos ombros de gigantes", de Isaac Newton, e a anotou em um maço de cigarros. Foi daí que surgiu o título do álbum.
Noel Gallagher viu escrito em um dos lados de uma moeda a citação “Se posso enxergar mais longe do que os outros, é porque estou em pé sobre ombros de gigantes”, de Isaac Newton, e a anotou em um maço de cigarros. Foi daí que surgiu o título do álbum. Todo o material gravado pelos ex-integrantes Bonehead e Guigsy teve que ser refeito, por questões contratuais. A primeira composição de Liam, Little James, feita para seu enteado, saiu neste álbum.

Entre as faixas de Standing on the Shoulder of Giants, está aquela que me fez ouvir Oasis, muito por conta de um clipe que vi na tv. Claro que isso já aconteceu com você, “ver” uma música antes de realmente a “ouvir”, não? Gostar do clipe, daí se apaixonar pela música e depois começar a gostar de mais trabalhos do artista…? Bom, foi assim comigo e o Oasis, graças a Sunday Morning Call.

Capa do single contendo Sunday Morning Call, lançado em julho de 2000. É o décimo oitavo single do Oasis, o terceiro do álbum Standing of the Shoulder of Giants e o primeiro em que Noel Gallagher canta nos dois lados. Aliás, desde o single Don't Look Back in Anger, de 1996, que Noel não cantava em um "lado A" de um single.
Capa do single contendo Sunday Morning Call, lançado em julho de 2000. É o décimo oitavo single do Oasis, o terceiro do álbum Standing of the Shoulder of Giants e o primeiro em que Noel Gallagher canta nos dois lados. Aliás, desde o single Don’t Look Back in Anger, de 1996, que Noel não cantava em um “lado A” de um single. Nem imagina o que é um “lado A” de um single? Velho… digo, jovem, eu nem vou perder tempo tentando fazer você entender…

Embalada em um arranjo maravilhoso, que destoa de boa parte do conjunto apresentado no álbum, com um excelente equilíbrio entre os instrumentos, Sunday Morning Call tem uma letra melancólica, com um refrão que se destaca não apenas pelo significado de suas palavras, mas também pela forma como são “tecidos”, criando uma sensação envolvente dentro da cabeça.

 Embora nunca se tenha confirmado tal história, a letra teria sido inspirada em Kate Moss, amiga de Noel, supermodelo que estava sempre envolvida em fofocas que a apontavam como usuária de drogas, mas que só enfrentou um grande escândalo em 2005, ao ser flagrada consumindo cocaína por fotografias publicadas no tablóide Daily Mirror.
Embora nunca se tenha confirmado tal história, a letra teria sido inspirada em Kate Moss, amiga de Noel (juntos na foto), supermodelo que, na época, vivia às turras com a imprensa sensacionalista britânica, que a acusava de usuária de drogas. Em 2005, ela terminou sendo exposta consumindo cocaína por fotografias publicadas no tablóide Daily Mirror.

O clipe, dirigido por Nick Egan e filmado em uma clínica para pessoas com problemas mentais em Vancouver, no Canadá, é uma clara versão de Um Estranho no Ninho (One Flew Over the Cucko’s Nest, 1975), com o ator James Cunningham interpretando um personagem que lembra R. P. McMurphy, papel que rendeu um Oscar a Jack Nicholson.  A bela fotografia e o coerente roteiro não escondem os velhos truques, como ter Noel cantando como um “fantasma” no “cenário”, invisível aos demais. Há quem interprete isto como uma clara referência às “vozes na cabeça” citadas no verso “When you’re lonely and you start to hear / The little voices in your head at night”, mas ninguém, nem Cunningham, em nenhum momento olha para onde está Noel (embora, em dado momento, o ator olhe para a câmera… ou seja, para quem está assistindo, pedindo – talvez ameaçando? – uma cumplicidade no tocante ao fato dele não ingerir os medicamentos). Mas esta ideia parece fazer sentido, principalmente quando o arranjo muda e deixa de lado o tom predominantemente acústico: Noel solta o violão e desaparece do apartamento, de onde cantava por trás de uma cortina de contas, reaparecendo na clínica de recuperação (depois de mostrar a mesma cortina vazia, apenas com o violão ao fundo), coincidindo com o momento em que o personagem de Cunningham passa a se comportar como se realmente fosse maluco. Noel, a “voz na cabeça”, teria acompanhado o provável doente? Seria este o motivo pelo qual ele aparece sem cantar (sem mover os lábios, já que a música continua rolando) em algumas cenas, depois volta a o fazer?

Sunday Morning Call também é a "faixa escondida" na coletânea Time Flies... 1994 - 2009. Mas apenas na versão britânica do álbum (na versão norte-americana, a faixa "secreta" é Champagne Supernova e na versão comercializada no Japao, Don´t Go Away). O motivo para o pouco destaque pode estar no áudio que acompanha a versão em dvd desta coletânea, onde Noel Gallagher diz odiar a canção.
Sunday Morning Call também é a “faixa escondida” na coletânea Time Flies… 1994 – 2009. Mas apenas na versão britânica do álbum: na versão norte-americana, a faixa “secreta” é Champagne Supernova e na versão comercializada no Japão, Don´t Go Away. O motivo para o pouco destaque pode estar no áudio que acompanha a versão em dvd desta coletânea, onde Noel Gallagher diz odiar a canção.

Outro clichê que cola é a banda aparecer como um reflexo na tela de tv, sem realmente estar no ambiente que aparentemente a cerca. Isto, junto ao jogo de futebol sem bola (que é acompanhado pelos integrantes do Oasis de uma das janelas do instituto, onde primeiro Noel e depois Liam fazem gestos aparentemente grosseiros em direção ao que acontece “em campo”) reforça a ideia de que a loucura, às vezes, pode ser apenas uma visão mais ampla do mundo que nos cerca? Não sei, realmente, mas que funciona do ponto visual, funciona.

Apesar da queda da qualidade de seus trabalhos, o Oasis manteve a sua força ao vivo. O dvd Familiar to Millions, registrando o show feito no condenado Estádio de Wembley, foi um triunfo comercial e crítico. A apresentação da banda no Rock in Rio de 2001 contou com a presença de um público de mais de 200.000 pessoas. Infelizmente, a apresentação em si ficou em segundo plano diante da polêmica entre Liam e Axl Rose, vocalista do Guns'n'Roses. Liam pediu, antes de subir ao palco, "mais ar puro e menos armas e flores". Axl, quando chegou sua vez, depois do Oasis, devolveu gritando para o público "Agora que vocês já dormiram, é hora do rock'n'roll!"
Apesar da queda da qualidade de seus trabalhos, o Oasis manteve a sua força ao vivo. O dvd Familiar to Millions, registrando o show feito no condenado Estádio de Wembley, foi um triunfo comercial e crítico. A apresentação da banda no Rock in Rio de 2001 contou com a presença de um público de mais de 200.000 pessoas. Infelizmente, a performance em si ficou em segundo plano diante da polêmica entre Liam e Axl Rose, vocalista do Guns’n’Roses. Liam pediu, antes de sua apresentação, “mais ar puro e menos armas e flores”. Axl, que subiu ao palco depois do Oasis, devolveu gritando para o público “Agora que vocês já dormiram, é hora do rock’n’roll!”

Vejo a cena em que Cunningham passa diante dos quartos como uma passagem de décadas, representadas através da música. Temos os anos 60 (o gordo cabeludo de bigode, lembrando os roqueiros da época), os anos 70 (o homem negro em posição de oração, uma referência ao som black da Motown – que conheceu seu auge naquela década, junto com o programa de TV Soul Train – e tinha forte influência do gospel) e os anos 80 (o magricelo de cabelo espalhafatoso lembra não apenas os remanescentes do punk como as material girls Cindy Lauper e Madonna). O próprio Cunningham – com seu visual “normal”, muito parecido com os dos próprios integrantes do Oasis – seria uma representação dos anos 90, não por acaso entrando no quarto seguinte.

A tensão entre os irmãos chegou ao insuportável em 2002, durante as gravações de Heathem Chemistry, com Noel (que abdicou da condição de único compositor a partir daqui) se queixando da atitude displicente de Liam. Apesar de ser uma volta ao rock básico e contar com a ilustre presença de Johnny Marr, ex-guitarrista dos Smiths, o álbum terminou sendo considerdo um dos piores trabalhos do Oasis, mesmo tendo faixas d qualidade, como Little by Little e Stop Crying Your Heart Out, que se tornou tema da desastrosa campanha da Seleção Inglesa de Futebol na Copa d Mundo de 2002. O oasis ainda lançaria dois trabalhos de estúdio que seriam novamente recebidos com louvor pela crítica e pelo público: Don't Believe the Truth, de 2005, e Dig Out Your Soul, de 2008. Mas uma discussão antes de uma apresentação, no ano seguinte, onde Liam chegou a atirar uma garrafa pelos ares, fez com que Noel abandonasse o local e avisasse, em 28 de agosto de 2009, "com trsiteza e alívio" a impossibilidade trabalhar ainda um dia que fosse ao lado do irmão. No dia 8 de outubro, em uma entrevista ao The Times, Liam confirmou o fim do grupo. Os ex-integrantes da banda, exceto Noel Gallagher, se apresentaram entre 2009 e 2014 com o nome Beady Eyes. Noel formou seu próprio grupo, chamado Noel Gallagher's High Flying Birds, ainda em atividade. Ele e Liam até hoje vivem às turras, inclusive com ameaças de processos de ambos os lados.
A tensão entre os irmãos quase chegou ao insuportável em 2002, durante as gravações de Heathem Chemistry, com Noel (que abdicou de vez da condição de único compositor a partir daqui) se queixando da atitude displicente de Liam. Apesar de ser uma volta ao rock básico e contar com a ilustre presença de Johnny Marr, ex-guitarrista dos Smiths, o álbum terminou sendo considerado um dos piores trabalhos do Oasis, mesmo tendo faixas de qualidade, como Little by Little e Stop Crying Your Heart Out, que se tornou tema da desastrosa campanha da Seleção Inglesa de Futebol na Copa do Mundo de 2002.A banda ainda lançaria dois trabalhos de estúdio que seriam recebidos com louvor pela crítica e pelo público: Don’t Believe the Truth, de 2005, e Dig Out Your Soul, de 2008. Mas uma discussão antes de uma apresentação, no ano seguinte, onde Liam chegou a atirar uma garrafa pelos ares, fez com que Noel abandonasse o local e avisasse, em 28 de agosto de 2009, “com tristeza e alívio”, a impossibilidade trabalhar ainda um dia que fosse ao lado do irmão. No dia 8 de outubro, em uma entrevista ao The Times, Liam confirmou o fim do grupo. Os ex-integrantes da banda, exceto Noel Gallagher, se apresentaram entre 2009 e 2014 com o nome Beady Eyes. Noel formou seu próprio grupo, chamado Noel Gallagher’s High Flying Birds, ainda em atividade. Ele e Liam continuam não se dando bem.

No fim, quando aparece toda a banda em um ambiente fechado, com cores que destoam do cinzento frio e triste que marca os demais cenários, podemos ver claramente Liam Gallagher, debruçado sobre o piano.

“You need more time / Because your thoughts and words won’t last forever more / And I’m not sure if it’ll ever work out right”

oasis5

Já foi o espírito vivo dos anos 80 e, como tal, quase pereceu nos anos 90. Salvo - graças, principalmente, ao Selo Vertigo -, descobriu nos últimos anos que a única forma de se manter fã de quadrinhos é desenvolvendo uma cronologia própria, sem heróis superiores ou corporações idiotas.