Faltou coragem em Cavaleiro das Trevas 3

Finalmente tive estômago para terminar a mais nova empreitada no universo d’O Cavaleiro das Trevas, concluída agora em junho de 2017. Desta vez, não foi Frank Miller quem dominou a obra de ponta a ponta, roteirizando e cuidando também da arte –que foi um ótimo ponto da obra– ele apenas deu a ideia principal da saga e digamos que serviu de “consultor” ao Brian Azzarello, que parece ter sido quem de fato assumiu os roteiros, pelo menos das HQs principais. As “mini HQs” internas parecem ter ficado livres para Frank Miller brincar um pouco.

Se você ainda não terminou de ler DKR III, talvez seja melhor não continuar este texto. Não pretendo abordar muito a história, mas pode escapar um spoiler aqui e ali.

Para aqueles que nunca nem ouviram falar da HQ do Cavaleiro das Trevas, ela se passa num futuro não tão distante do universo regular do Batman, onde o Bruce Wayne já está bem velho e debilitado para seguir com sua vida de vigilante. Houve uma continuação no início dos anos 2000, que particularmente não acho tão horrorosa como todo mundo diz, apesar de concordar que ela foi bem bagunçada.

O maior trunfo da primeira e da segunda saga do Cavaleiro das Trevas era abordar as histórias do Batman de maneira mais crua e violenta, aproveitando para mostrar uma visão bem diferente dos outros heróis da DC.

Por mais que Cavaleiro das Trevas 2 tenha seus problemas, ela é uma história corajosa por ter “esculachado” alguns personagens da DC e ter se mantido assim até o final. Mesmo quem não gosta dessa HQ provavelmente achou genial o governo americano usar o Flash como uma fonte mais barata de gerar energia para um terço da população norte-americana, correndo como um hamster de estimação.

Cavaleiro das Trevas 3 também utiliza destas extrapolações com personagens chave do panteão da DC, mas as desfaz quase que em seguida. Não apenas isso, mas todas as tentativas de destruir ou enfraquecer os heróis acontecem tão subitamente que soam como um desdém à inteligência do leitor. Não há desenvolvimento nenhum ao enfraquecer dois dos maiores e mais poderosos heróis da DC: Flash e Lanterna Verde. Em um quadro Hal Jordan perde a mão, com seu anel do poder, e Flash é atropelado por um Kandoriano que quebra as pernas do homem mais rápido do mundo. Pois é.

Personagens com décadas de história, que já enfrentaram situações bem mais ameaçadoras sendo derrotados como se fossem quaisquer idiotas. Mas tudo bem, é o universo pessimista e destrutivo de Cavaleiro das Trevas… Aí vem a solução para estes problemas. E pronto, você já quer rasgar a revista outra vez.

Em DKR III inclusive, vemos um Superman heróico ao invés do “vilão” e completo boçal vendido ao governo do primeiro Dark Knight. Isso já é um sinal de que o Miller não está mesmo no controle da trama.

“Será que o Miller aprendeu a gostar do Super após todos esses anos? Acho que não foi isso…”

Mas e os vilões? São os Kandorianos, um povo de Krypton que foi encolhido e aprisionado em uma garrafa de vidro. Eles queriam ser libertados daquela vida diminuta, então Lara, filha do Superman com a Mulher Maravilha pede ajuda ao Átomo para que ele retorne aqueles mini Kandorianos ao tamanho normal e acabe com o sofrimento deles. Parece mesmo uma ideia plausível e segura, não? E é claro que o Átomo concorda com a ideia absurda de soltar vários Kryptonianos na terra sem titubear.

Talvez a maior reviravolta da trama (eu avisei que teria spoiler) seja a morte do Batman. Foi algo que me trouxe de volta à história quando eu já estava pestanejando de tão sonolenta que é a HQ com todos os seus absurdos de roteiro. Me surpreendi com a coragem da equipe criativa em matar o personagem principal da história, um dos heróis mais adorados de todos os tempos. Tudo bem, afinal, desde o primeiro Cavaleiro das Trevas, Bruce Wayne já estava numa idade muito avançada para sua rotina de salvador de Gotham. Que ótima virada na história! Superman pega Bruce em seus braços, voa desesperadamente sem poder fazer nada para salvar a vida do, agora, amigo. Eu já estava imaginando o Super congelando o corpo do Bruce na Fortaleza da Solidão, criando um tótem do vigilante de Gotham e eternizando-o. Imaginei aquele universo seguindo com foco na Carrie, a Robin do primeiro DKR, contra a Lara que ficaria como a antagonista tal qual seu pai já foi um dia.

Inocente que sou, não sabia de nada. O personagem que acabou de morrer no final da edição passada, já estava sendo ressuscitado no Poço de Lázaro, voltando mais jovial do que nunca. Pelo amor de Deus.

A falta de coragem em explorar este universo sem ter que se preocupar com o destino dos personagens ali inseridos –afinal não é um universo canônico– é ridícula. Após algumas edições, fica difícil diferenciar estas histórias de DKR III de uma HQ periódica do Batman. Cavaleiro das Trevas não foi criada para ser uma HQ super-heróica de final feliz como os gibis convencionais.

Como se tudo já não estivesse horrível o suficiente, a solução para acabar com os Kandorianos é tão hilária e surrealmente ruim, que vale a pena você mesmo conferir, boas risadas estão garantidas!

Cavaleiro das Trevas parece aquela refeição suculenta que quando saboreada pela primeira vez é sensacional, mas depois de requentada nunca mais será tão boa. Nesta terceira edição ela já está podre.

Eu sou o caos, senhor Kurtz, caos! E o resto do mundo não irá admitir que é exatamente como eu.       "Listen all you fools. Don't you know that Carnage rules?"