Iluminamos – Black Mirror: S04E01 – USS Callister

A quarta temporada de Black Mirror chegou. E o que mais poderia ser abordado pela série que gosta de extrapolar as possibilidades tecnológicas até que se mostrem um desastre?

Uma paródia de Star Trek.

"Como chegar num planeta desconhecido impondo respeito:"
“Como chegar num planeta desconhecido impondo respeito:”

É, uma paródia de Star Trek mesmo. Mas calma, não é tão simples assim, afinal essa série é muito Black Mirr—não, pera.

Todas as referências à Star Trek são muito óbvias, então não vamos perder tempo falando sobre isso. Ainda mais quando o pano de fundo desse episódio toca numa ferida muito importante: A tóxica comunidade nerd/gamer. Ah, esses textos sobre Black Mirror serão cheios de spoiler. Leia por sua conta e risco!

Temos dois personagens centrais nesse episódio: Robert Daly, diretor técnico da Callister, uma empresa de tecnologia criadora do jogo de realidade virtual —absurdamente avançada— Infinity. Robert é um gênio em sua área, porém, é desprovido de qualquer habilidade social. É desajeitado, tímido, como qualquer nerd padrão.

A outra personagem de grande importância é Nanette Cole, a Mãe no HIMYM (que eu não fazia ideia de quem fosse, até a mozão explicar), uma programadora que acaba de chegar à Callister para trabalhar na atualização do jogo Infinity.

"Este aparelhinho já foi visto em outros eps de Black Mirror. Hmm..."
“Este aparelhinho já foi visto em outros eps de Black Mirror. Hmm…”

Logo temos a explicação daquela paródia à Star Trek do início do episódio. Aquilo é uma versão off-line do jogo Infinity, onde Robert recria todo o cenário da sua série favorita. No jogo, Robert, que é uma clara alusão ao Capitão Kirk, é idolatrado por sua equipe. Um líder perfeito, que consegue se safar dos vilões com estratégias infalíveis.

Na verdade, o jogo serve apenas para Daly superar todas as suas frustrações pessoais. Em Infinity, o completo loser social se torna uma figura imponente. E para que ele se pareça ainda mais com os nerds que vemos por aí, caso alguém o contrarie dentro deste mundo onde ele dita as regras, ele reage de forma abusiva e fisicamente violenta. E é aqui onde o episódio começa a ficar interessante.

"Nossa! Não consegue enxergar, não consegue respirar... Desagradável, não?"
“Nossa! Não consegue enxergar, não consegue respirar… Desagradável, não?”

A tripulação de Daly é composta por sósias dos seus amigos de trabalho na Callister. Todos ali, de alguma forma, já o desapontaram alguma vez. Ele então conseguiu coletar o DNA de cada um, e criou réplicas destes “colegas” em seu jogo. Ali, onde o nerd frustrado era o todo poderoso, poderia torturá-los da maneira que quisesse. A tripulação não pode escapar do jogo, nem mesmo morrendo, pois Daly tem uma cópia do DNA de cada um e pode trazê-los de volta ao game quando quiser. Eles são obrigados a idolatrar o “Kirk fajuto”.

Aqui no simulacro do Star Trek clássico, temos a visão estereotipada da época: um branco loiro como líder intocável, negros como meros coadjuvantes, e mulheres em trajes curtos e sensuais porque é assim que se deve partir para aventuras contra monstros no espaço, obviamente. Para piorar, elas nem ao menos usam armas durante as batalhas. É o que todo nerd conservador ama, é a zona de conforto deles. E por isso essa comunidade é tão tóxica e cansativa para os que não são mulas pessoas retrógradas.

Após um plano para a tripulação conseguir contato com alguém do “mundo real” e se livrarem daquele jogo, a versão de Daly no game fica presa no espaço pré-atualização, enquanto sua antiga equipe atravessa um buraco-de-minhoca passando para a versão atualizada do jogo. Neste update, nada de trajes ridículos, nada de personagens estereotipados, e temos uma mulher na liderança. Visualmente, a paleta de cores e luzes fortes remetem ao novo Star Trek de J.J. Abrams. E a metáfora se estende. Daly, o nerd conservador “morreu” na versão desatualizada do jogo, a tripulação se atualizou e agora não precisa mais dos exageros conservadores de antes, tal qual a própria franquia Trekker e Star Wars se atualizaram e vêm causando uma guerra entre os fãs.

No final temos até uma participação em voz de Aaron Paul, o Pinkman de Breaking Bad e Todd do Bojack Horseman. Seria maravilhoso, inclusive, se este personagem do Aaron, o Gamer691 fosse o Todd coexistindo num “Netflixverso”. Seria tão Black Mirr—alerta de piada repetida—.

"Cowabunga!"
“Cowabunga!”

 

Volto logo para falar do episódio 02. Até lá!

Eu sou o caos, senhor Kurtz, caos! E o resto do mundo não irá admitir que é exatamente como eu.
     
“Listen all you fools.
Don’t you know that Carnage rules?”