Iluminamos – Black Mirror: S04E04 – Hang the DJ

Chega de tristeza e suspense. Vamos refletir um pouco sobre relacionamentos e tecnologia? Ah, o texto é repleto de spoilers!

Um dos episódios que eu estava mais empolgado para assistir, devido a todos os elogios que ouvi por aí. Quão legal poderia ser uma história em Black Mirror onde a tecnologia abordada é muito similar ao famigerado Tinder?

Nesta que seria uma versão muito aprimorada do app, o “match” é dado pelo próprio sistema, baseado em informações de seus usuários. Tudo é coordenado pela “Coach” de cada device, uma inteligência artificial muito semelhante à sarcástica Glados da franquia Portal.

Não apenas o match, mas o local do encontro, o que o casal vai consumir no jantar, onde vão dormir, tudo já está preparado pela Coach. Quer mais facilidade ainda? O aplicativo já te dá um prazo de validade para o relacionamento!

E é exatamente isso que acontece no início da trama. Vemos Frank e Amy, um casal extremamente nervoso com este encontro às cegas por ser a primeira vez que ambos usam o serviço. Apesar de desajeitados, eles parecem se dar bem, mas ao checarem a validade do relacionamento, se deparam com as 12 horas restantes. Tudo bem, era só a primeira tentativa deles no aplicativo.

Prazo de validade para os relacionamentos

O casal não pode estender o prazo de validade. Esse limite estipulado pelo serviço é, supostamente, o tempo ideal que deveriam passar juntos. Terem suas experiências, decepções, aprenderem com tudo isso e partir para o próximo relacionamento. Até que um dia a tecnologia encontre o tão aguardado par definitivo. Portanto, não necessariamente o usuário vai se relacionar com alguém que seja uma boa companhia. E tudo bem, a vida é assim!

Nenhum relacionamento é perfeito, e principalmente as nossas primeiras tentativas tendem a ser, senão desastrosas, pelo menos um pouco frustrantes. E é passando por todos estes obstáculos que vamos aprendendo a contornar cada problema e valorizar mais as pessoas com as quais escolhemos passar a vida juntos.

Fim das 12 horas de validade para Frank e Amy. Eles seguem suas vidas, Frank entra num novo relacionamento, agora com prazo de validade de um ano e Amy vai passar nove meses com seu novo par. O problema é que os dois deram azar: Frank está com uma garota insuportável que não tem afinidade alguma com ele, e reclama de tudo que seu novo namorado faz. Amy acabou com um típico “canalha garanhão”, que já na primeira noite juntos, diz que é seu quinto relacionamento pelo app e que as coisas funcionam melhor se eles transarem na primeira noite, para se conhecerem mais.

"Além da personalidade insuportável, de rosto lembra a Mara Maravilha. Como não odiar essa personagem?"
“Além da personalidade insuportável, de rosto lembra a Mara Maravilha. Como não odiar essa personagem?”

Frank tenta convencer a Coach do seu aplicativo de que ele deve sair desse relacionamento, mas é alertado que: é necessário passar por algo assim para que encontre seu par definitivo.

O relacionamento de Amy, que tinha um prazo de validade menor que o de Frank acaba, e seus próximos encontros são todos casuais. Frank vive seus últimos meses de tortura até que seu relacionamento também chega ao fim. Amy também estava solteira. O app junta os pombinhos outra vez.

Quantas vezes não vemos isso na vida real? Daquele relacionamento que julgamos ter tudo para dar certo mas chega a separação, cada um segue vivendo sua vida, para depois voltarem a ficar juntos. *Nhooom*

Amy, que já estava cansada de tantos encontros casuais, propõe que eles não olhem a data de validade e apenas curtam enquanto durar o relacionamento. Como nada é perfeito, Frank acaba quebrando a promessa e checa a data de validade. A princípio, 5 anos de duração.

Confiança é uma peça chave em qualquer relacionamento, e quebrar uma promessa tão séria não foi algo legal. O aplicativo imediatamente começa a recalcular o prazo de validade até que para em 20 horas restantes! Frank estragou tudo. O relacionamento que parecia ter tudo para dar certo dessa vez, agora está condenado a menos de um dia de duração. Está tudo acabado, certo?

Talvez não. Assim como em qualquer outra coisa na vida, os “pontinhos” vão se conectando sem percebermos, até que nos levam a algo bom, que não teria acontecido se você não tivéssemos passado por tudo o que passamos. Como Steve Jobs já havia dito em seu famoso discurso em Stanford.

É um animal, realmente

O desfecho da história é tão lindo quanto todo o resto. O plot twist final faz com que alguns diálogos do início do episódio deem a entender que toda a trama até então era na verdade um meio humanizado e fofinho de mostrar os algoritmos desse aplicativo funcionando como se fossem pessoas.

-Devia ser loucura antes do sistema. As pessoas tinham que cuidar de relacionamentos sozinhas, decidir com quem ficar.

-Deviam ficar indecisos. É difícil escolher com tantas opções.

-Exatamente. E, se as coisas ficassem ruins, tinham que dar um jeito de terminar.

-Um pesadelo. Bem diferente de ter tudo definido.

 

Hang the DJ por enquanto é o episódio “bonitinho” da temporada, assim como San Junipero foi na temporada anterior. Duas histórias para limpar a alma de tanta tragédia que Black Mirror traz nos outros episódios.

 

Nos encontramos novamente no texto sobre o episódio 05: Metalhead.

Ah, o título tem relação com a história em si: Hang the DJ significa “Enforque o DJ”, mas ela é uma música do The Smiths que toca lá no fim, quando eles etsão fora do aplicativo. 😉

 

Eu sou o caos, senhor Kurtz, caos! E o resto do mundo não irá admitir que é exatamente como eu.

“Listen all you fools. Don’t you know that Carnage rules?”