Atendendo ao chamado da Mulher-Maravilha

Embora este seja um texto muito pessoal, as reflexões que me trouxeram até aqui partem de estudos e considerações de alguns teóricos sobre a relação de algumas histórias em quadrinhos com aspectos da religiosidade humana.

O pesquisador da Aspas – Associação de Pesquisadores em Arte Sequencial, Iuri Reblin, tem uma grande produção relacionando teologia e quadrinhos. Graduado em Teologia, sua tese de doutorado, sobre as relações do Superman e religiosidade, foi a primeira tese sobre quadrinhos a ganhar o prêmio Capes. Sendo um dos maiores especialistas sobre essas relações dos super-heróis com aspectos de diversas religiões, Iuri foi convidado a proferir uma palestra sobre a Mulher-Maravilha em uma universidade de Atenas, na Grécia, em junho deste ano.

Sobre os elementos religiosos encontrados em diversas narrativas em quadrinhos, vários pesquisadores ressaltam a relação do Superman com o judaísmo ou com a ideia de um messias, facilmente notada em histórias como o Reino do Amanhã, de Alex Ross, onde a trajetória de Superman se assemelha bastante com passagens bíblicas sobre Jesus Cristo, de acordo com Iuri.

Mas além dos super-heróis, seria possível que fãs desenvolvessem por seus ídolos uma espécie de adoração semelhante ao que as pessoas experimentam em suas religiões? Para Umberto Eco, apesar de algumas diferenças em sua narrativa, os super-heróis se assemelham demais ao antigos mitos. Lembrando que para os gregos, a mitologia nada mais era do que a história de seus deuses.

Nesse sentido, não é incomum nos depararmos com depoimentos de fãs, famosos ou não, sobre como um determinado super-herói os inspirou a lidar com algum conflito. Gail Simone nos ensina que em uma situação complicada, devemos nos perguntar: “O que a Mulher-Maravilha faria?” Afinal, a ficção tem como uma de suas funções nos ajudar a lidar e a interpretar a realidade, ou seja, os heróis nos serviriam como modelos de comportamento que nos inspirariam diante dos mais diversos desafios.

Pessoalmente, eu achava que tudo isso era um grande exagero: acreditar que um personagem fictício pudesse literalmente lhe ajudar a sair de alguma situação complicada. Quando muito, poderia inspirar por meio da identificação, mas atribuir poderes mágicos a eles, sempre pareceu um pouco demais. Ainda assim, há relatos como o da escritora Lilian Robinson, em seu livro Wonder Woman and Feminisms, que conta sobre uma vez que caiu em sua banheira e não conseguia se levantar, se reergueerguendo posteriormente depois de ter apelado à imagem da Mulher-Maravilha.

A psicóloga Andrea Lagareiro usa histórias em quadrinhos para ajudar adolescentes a lidarem com conflitos e, embora não haja nada de místico ou transcendental neste fato, ele acredita que os super-heróis podem nos ajudar a efrentar situações que normalmente não conseguiríamos.

Bom, e o chamado da Mulher-Maravilha?

Arte de Carolina Ito, do Salsicha em Conserva.

Quem me conhece hoje sabe que no último ano eu fui convidada a participar de programas de TV, entrevistas, podcasts e todo tipo de produção que se refira à Mulher-Maravilha. Recebo fan arts e links de pessoas que não me conhecem pessoalmente, sob o argumento de que não conseguem mais ver a Diana sem lembrarem de mim. Essa é sem dúvida uma associação MARAVILHosa! Mas o que talvez ninguém imagine, é que minha relação com ela começou de forma tão mágica quanto os relatos místicos de pessoas que conseguem superar adversidades apelando à imagem dos super-heróis.

Em abril de 2016 eu rompi uma amizade com um colega extremamente abusivo. Uma pessoa que dizia que a única razão de eu ser convidada a escrever nos blogs era porque os responsáveis tinham segundas intenções em relação a mim. Dizia que tudo que eu escrevia era raso e superficial. Me xingava quando eu curtia publicações de coletivos femininos e me ofendia quando eu o contrariava. Curiosamente, essa pessoa tem uma relação com os personages da DC que beira a obsessão, mas no caso da Mulher-Maravilha, essa era seu principal objeto de pesquisa.

Como minhas únicas referências até então se resumiam à Lynda Carter e aos Super-Amigos, eu não entendia muito bem o que ele fazia em sua pesquisa, mas sabia que se se alguém precisasse perguntar qualquer coisa sobre a personagem, ele seria a pessoa certa. Porém, como suas atitudes se tornavam cada vez mais violentas, nós brigamos e não nos falamos mais, embora ele tenha se dedicado, sem sucesso, a me difamar, me acusando de plagiar sua pesquisa, me chamando de vagabunda entre os colegas em comum…

Em maio de 2016 eu fui convidada a participar do meu primeiro evento sobre a evolução da Mulher-Maravilha nos últimos 75 anos. O evento era o FestComix e a mesa era do Minas Nerds, a convite da Gabriela Franco. Ainda que eu não soubesse muita coisa sobre a princesa das Amazonas, conhecendo apenas as pesquisas de outras colegas sobre o assunto e o que havia estudado para uma disciplina do mestrado, eu cheguei e ficar recesosa se a Gabi havia feito a escolha certa, mas ela não tinha dúvidas quanto a isso.

Então, uma semana antes do evento, comentei com um amigo sobre minha insegurança e ele me enviou o livro  A História Secreta da Mulher-Maravilha, de Jill Lepore. Esse livro, com lançamento em junho de 2017 no Brasil, é resultado da extensa pesquisa de Lepore, historiadora de Harvard, que conseguiu juntar documentos pessoais de Wiliam Marston, criador da Mulher-Maravilha e transformá-lo em um verdadeiro registro sobre o surgimento da heroína mais icônica dos quadrinhos.

Vejam, esses são os primeiros eventos que me aproximaram da Mulher-Maravilha, sem que eu tivesse feito absolutamente nada para que acontecessem. Eu nunca havia falado sobre ela antes, mas a partir daquela mesa no FestComix, logo depois de eu ter brigado com o colega, foi uma espécie de marco para que ela nunca mais saísse da minha vida.

Publiquei então o texto aqui no Iluminerds, sobre o livro da Lepore. O colega me acusou de plagiar sua pesquisa, embora o texto se refira exclusivamente ao livro que mencionei. Prints enviados por amigos em comum e conselhos me alertavam para o fato de que eles temiam pela minha integridade física, já que o ódio que ele passou a alimentar por mim, não parava de aumentar. Desenvolvi pânico. Tinha medo de encontrá-lo nos eventos e os amigos insistiam que ele poderia me machucar fisicamente. Diante das mensagens que tive acesso, todas me xingando de vagabunda, falsa, entre outras coisas, eu tentava não ficar em seu radar.

Arte que um amigo enviou

Mas a Mulher-Maravilha continuava aparecendo em minha frente: em julho de 2016, um programa de TV que faz biografias de mulheres queria fazer a biografia de sua primeira personagem fictícia. Mas era em Minas e eu sou de SP. Isso seria um problema se a gravação não estivesse marcada justamente para a semana que eu estaria em Belo Horizonte para um evento do Lady’s Comics e mais uma vez, um amigo me indicou para o programa e deu tudo certo.

 

A essa altura, o ex-colega, que continua no ostracismo até hoje, seguia me odiando ainda mais. E na medida que seu ódio aumentava, a Mulher-Maravilha continuava aparecendo em minha frente.

Então, só me restou ler o máximo de quadrinhos que eu conseguisse e acompanhar o que eu desse conta de acompanhar. Não só isso, por meio do meu contato com a Trina Robbins, a primeira mulher a desenhar a Mulher-Maravilha, eu conheci a Christie Marston, neta de William Marston e que me concedeu uma entrevista exclusiva via e-mail. Conheci uma rede mundial que compartilha do mesmo amor pela Mulher-Maravilha e hoje formamos um grupo internacional que tem entre seus integrantes, pesquisadores, escritores, dubladores e o que mais se pode imaginar de profissão que tenha ligação com Diana.

De lá pra cá, perdi a conta de quantas entrevistas, programas de TV, podcasts eu já participei, de forma que quando fui ao cinema assistir ao filme, a sensação que tive é de finalmente ter reencontrado uma velha amiga. Fazer parte dessa rede que compartilha o mesmo encantamento que aprendi a ter ao longo desse ano, tem me fortalecido de tal forma, que só posso acreditar que o universo tem uma maneira muito divertida de compensar as coisas. Se por um lado eu tive minha autoestima estraçalhada por uma pessoa que se dizia minha amiga e depois tive que lidar com pânico e crises de ansiedade diante da possibilidade de encontrá-lo, a Mulher-Maravilha me aproximou de pessoas incríveis e vem me proporcionando uma experiência pela qual eu só poderia ser muito grata.

Portanto, eu não tinha como ignorar esse chamado. Se antes eu acreditava que essa história de heróis resgatando leitores era um exagero, hoje eu tenho certeza que eu, de alguma forma, fui salva por ela.

 

Dani Marino
Dani Marino é pesquisadora de Quadrinhos, integrante do Observatório de Quadrinhos da ECA/USP e da Associação de Pesquisadores em Arte Sequencial - ASPAS. Formada em Letras, com habilitação Português/Inglês, atualmente cursa o Mestrado em Comunicação na Escola de Artes e Comunicação da USP. Também colabora com outros sites de cultura pop e quadrinhos como o Minas Nerds, Quadro-a-Quadro, entre outros.