Asilo Arkham – Uma Séria Casa em Um Sério Mundo

Aproveitando que a Panini lançou por aqui a Edição Definitiva da mais vendida de todas as graphic novels, resolvi relembrar um pouco desta obra fantástica.

O, na época, cabeludo – e talentoso – Grant Morrison vinha chamando a atenção com sua passagem pelo título Homem-Animal. A grana recebida por Asilo Arkham lhe permitiu investir na sua carreira independente. Anos depois, alcançaria o estrelato máximo, trabalhando com a Liga da Justiça e os X-Men.
O, na época, cabeludo – e talentoso – Grant Morrison vinha chamando a atenção com sua passagem pelo título Homem-Animal. A grana recebida por Asilo Arkham lhe permitiu investir na sua carreira independente. Anos depois, alcançaria o estrelato máximo, trabalhando com a Liga da Justiça e os X-Men.

O enredo em si não é complicado. Os pacientes, mais uma vez, se libertam misteriosamente e tomam o controle do local, fazendo um grupo de reféns e exigindo a presença do Batman no local. Sem alternativa, o Homem Morcego aceita a exigência e entra no hospício, onde é confrontado por alguns dos seus piores inimigos. Paralelamente, é contada, rápida mas não superficialmente, a história do fundador do lugar, Amadeus Arkham, desde a loucura de sua mãe até o término de sua existência enclausurado numa cela no próprio hospital psiquiátrico em que transformou a mansão de sua família. Há uma pequena surpresa no final, quando se descobre o responsável pela fuga dos prisioneiros e o motivo que o incentivou a tal desatino, de certa forma colando as duas narrativas.

O inglês Dave McKean é conhecido por fãs de HQs de alta qualidade pelo seu trabalho nesta obra e as capas que compôs para a série Sandman, de Neil Gaiman.
O inglês Dave McKean é conhecido por fãs de HQs de alta qualidade pelo seu trabalho nesta obra e as capas que compôs para a série Sandman, de Neil Gaiman.

Morrison faz esta premisa até simples render a tal ponto que houve na época do seu lançamento uma certa polêmica porque muitos leitores se queixaram de que a história seria ininteligível.   Justamente o que os autores queriam, pois

Capa da edição da Abril, de 1990.
Capa da edição da Abril, de 1990.

há uma clara intenção de criar um caos na narrativa tão grande que aqueles que

Capa da edição de 2003, da Panini.
Capa da edição de 2003, da Panini.

acompanham os acontecimentos atentamente passam logo não só a ter dificuldade pra discernir os loucos dos sãos como podem chegar a questionar o próprio conceito de normalidade.

Um exemplo? A forma como os médicos tratam a fixação de Harvey Dent pelo conceito preto-branco, tentando introduzir diversas camadas de cinza, o torna tão perturbado que ele fica incapaz de tomar decisões triviais como ir ao banheiro (a forma, ao fim da HQ, como Batman devolve o antigo aliado ao seu estado anterior de insanidade é muito bem sacado, até porque fecha bem a questão da rebelião no Asilo).

Morrison também brinca com o conceito de super-sanidade que é atribuído ao Coringa, justificando a personalidade multifacetada do vilão, explicando porque em algumas épocas ele é um assaltante de bancos risonho e em outras um genocida cruel.

Por falar nele, poucas vezes tivemos um Coringa tão provocativo. Ele não para de fazer insinuações sexuais – normalmente envolvendo aquele lixo de personagem que é o Robn – e, de forma bem mais explícita do que em O Cavaleiro das Trevas, de Frank Miller, fica “paquerando” o Batman.

“Já sabemos (que estamos livres). Mas, e você? Veio reclamar sua camisa-de-força? Ou só quer que acabemos com a pobre e miserável criatura que você é?”
“Já sabemos (que estamos livres). Mas, e você? Veio reclamar sua camisa-de-força? Ou só quer que acabemos com a pobre e miserável criatura que você é?”

As interpretações dadas a outros personagens é bem realista. O Cara de Barro é mostrado simplesmente como um sujeito com um grave problema de pele, o Crocodilo é um monstro irracional e o Chapeleiro Louco, em um dos melhores diálogos da obra, praticamente declara aquilo que é apenas sugerido em algumas de suas outras aparições nas HQs: ele é um pedófilo.

“Às vezes, acho que o Asilo é uma cabeça. Estamos dentro de uma cabeça que nos sonha. Talvez seja a sua cabeça, Batman. Arkham é um país dos espelhos. E nós somos você.”
“Às vezes, acho que o Asilo é uma cabeça. Estamos dentro de uma cabeça que nos sonha. Talvez seja a sua cabeça, Batman. Arkham é um país dos espelhos. E nós somos você.”

E no meio de tudo isto temos o Batman, lutando dentro daquele caos pra manter um resquício de sanidade. Como

Alice, de Lewis Carroll – obra citada no início e no fim da história –,  ele se entranha em um mundo de fantasia que tenta se sobrepor ao real. No fim, quando o Morcego sai ainda escuta o Palhaço se despedindo debochadamente:

“Vá curtir a vida lá fora. No asilo. E não esqueça que, se a barra pesar… Sempre vai ter um lugarzinho pra você aqui.”
“Vá curtir a vida lá fora. No asilo. E não esqueça que, se a barra pesar… Sempre vai ter um lugarzinho pra você aqui.”

O clima de terror é salientado pela arte poluída de Dave McKean. Mistura de pintura, fotografia, desenho em carvão, colagem, escultura… A HQ montada pelo desenhista e designer surpreende e assusta a cada página. Ele e Bill Sienkiewicz – de Elektra Assassina – são os melhores exemplos do que se convencionou chamar de expressionismo nas HQs.

Aqui, foi publicada pela Editora Abril em 1990 e pela Panini, em 2003. Agora, ganhou uma versão definitiva em capa dura e preço salgado.

“O Coringa não tem verdadeira personalidade. Ele cria uma diferente por dia. O Coringa se vê como o mestre do desgoverno e o mundo como um teatro do absurdo.”
“O Coringa não tem verdadeira personalidade. Ele cria uma diferente por dia. O Coringa se vê como o mestre do desgoverno e o mundo como um teatro do absurdo.”

Vale conferir um tempo em que Morrison era realmente genial e em que a expressão “artista” era usada com mais zelo.

Para terminar, fiquem com um fan film feito na Espanha por Miguel Mesas, que se esmerou em manter o clima solitário da obra original (bem como o visual utilizado por Dave McKean).

 

 

Foda!

Asilo Arkham - Uma Séria Casa em um Sério Mundo. Roteiro de Grant Morrison. Arte de Dave McKean. Editora original DC Comics. Edição nacional pela Panini. 216 páginas. R$ 60,00
Asilo Arkham – Uma Séria Casa em um Sério Mundo – Edição Definitiva. Roteiro de Grant Morrison. Arte de Dave McKean. Editora original DC Comics. Edição nacional pela Panini. 216 páginas. R$ 60,00
Já foi o espírito vivo dos anos 80 e, como tal, quase pereceu nos anos 90. Salvo - graças, principalmente, ao Selo Vertigo -, descobriu nos últimos anos que a única forma de se manter fã de quadrinhos é desenvolvendo uma cronologia própria, sem heróis superiores ou corporações idiotas.
  • Churrumino

    Ainda não tem data de lançamento e nem preço, JJota?

    • JJota

      Não, Churrumino. Aparentemente, ela estava cotada para sair no fim do ano passado, mas foi adiada. O que sei é que a edição americana traz, além da história, o roteiro do Morrison e comentários da editora Karen Berger. Deve ficar algo entre o preço de O Filho do Demônio e o primeiro volume da Liga da Justiça do Morrison (ou seja, entre R$ 25,00 e R$ 55,00). Aposto no preço mais alto, afinal será capa dura e papel couché.

      • Churrumino

        Entendi. Esse vai pra lista de compras tbm.

      • O negócio é ficarmos atentos para promoções de grandes redes como Extra ou Carrefour ou usar o Buscapé para gerar aquele desconto maneiro na Saraiva. Eu aproveitei as liquidações do Extra e cofrei no início do ano “Pagando por Sexo”, “Supremos II”, “WE3″ e All Star Superman” com excelentes descontos. Agora o resto do ano passo na seca por ser baixa renda…

  • Linik

    Essa Hq é muito genial…quando a li eu estava decepcionado com o reboot da DC,HQS geniais como essa nos fazem acreditar(talvez falsamente)que bons roteiros voltem a existir e que um dia tenhamos grandes especiais denovo.Altamente Psicologica e inteligente…visões diferentes dos vilões.Eu compraria,mas não tenho grana,por isso li em scan.

  • MajinM

    Fantástica.

    O momento final da HQ, quanto o Duas-Caras volta a sua dualidade e joga a moeda pela vida do Batman, é sensacional, e nos deixa com a pulga atrás do orelha quanto a personalidade de Harvey Dent. Estaria o corajoso promotor ainda embaixo de toda aquela loucura?

    E o Grant Morrison é praticamente um Sansão dos escritores. Foi só ficar careca que perdeu a força na hora de escrever. Que tristeza.

    • JJota

      E eu acho incrível como o Batman arrisca a própria vida para ajudar a restaurar um pouco da psiquê do Harvey. Na lógica do Morcego, sendo o Duas Caras ainda temos 50% de Harvey Dent, enquanto o tratamento havia destruído completamente a personalidade dele.

      Sansão das HQs…? Porra, essa foi foda! HA!HA!HA!HA!HA!HA!HA!HA!HA!HA!

      • Harvey_o_Advogado

        a versão do desenho animado Harvey era amigo de infância do bruce. Tem alguma ligação com a versão dos quadrinhos esse fato?

        • JJota

          Na cronologia depois de Crise nas Infinitas Terras, não.

  • Confesso que nunca fui conhecedor das HQ, mas algo que me motiva a ler são os encadernados. E pela sua descrição Jota Jota, com certeza irei comprar.

    • JJota

      Sou eu elogiando uma história do Batman escrito pelo maldito Morrison. Logo, pode acreditar que vale a pena.

    • Harvey_o_Advogado

      só compro encadernados (quando sobra dindin), essa vida de revista mensal, é muito cara.

  • pra mim essa hq é o batman na vertigo , genial , perturbadora e com um final fantástico , pra mim ta pau a pau com o cavaleiro das trevas e a piada mortal

    • JJota

      Ah, eu não iria tão longe. Mas, com certeza, é uma excelente história (superior a A Piada Mortal). Não à toa a Graphic Novel mais vendida de todos os tempos.

  • tenho duas edições dessa hq: uma meio surrada pela abril e um zero bala pela Panini.
    Se essa nova vier cheia de extras, capa dura e tals, compro de novo.

    • JJota

      Foi o que a Panini prometeu, Sorg. Além da história, artes descartadas e promocionais, comentários da Karen Berger e o roteiro completo e original do Morrison. Capa dura e papel couché.

      • massa.
        Cofre certo.

        Em 9 de janeiro de 2013 16:23, Disqus escreveu:

        • JJota

          Também vou nessa.

  • Super_man

    Robin é um personagem legal.

    • JJota

      Fica com ele pra você. Sempre achei que o Superman combinaria com um sidekick.

      • Super_man

        Ele já tem o Jimmy Olsen.

        • JJota

          Putz, agora me lembrei daquelas histórias de merda dos anos 50, em que a cor da kryptonita influenciava a personalidade do Superman…

          • Super_man

            Peter David até fez piada com isso na mini-série que a Panini publicou com a Supergirl. Tinha até uma kryptonita rosa que… bem… pois é!

          • JJota

            O Alan Moore também citou isso em Supremo, não?

          • Rosinha

            Isso, e outros muitos outros elementos do gênero de super-heróis.

          • JJota

            Cara, como aquela história é foda. É mesmo muita pena que não seja realmente o Superman ali.

          • Harvey_o_Advogado

            desculpa esfarrapada para dizer que é uma homenagem ao azulão.

          • Rosinha

            Esfarrapada, não. Aliás, não foi desculpa nenhuma. Foi uma releitura do Supremo, que até então era apenas mais uma criação idiota e vazia do Rob Liefeld, usando elementos da mitologia do Superman.

  • Don Vittor

    Muito bom Jota Jota. Existe previsão desta reimpressão pela Panini?

    • JJota

      Como eu disse, ela estava prevista pro fim do ano passado, mas foi adiada, pelo que parece.

    • JJota

      ATUALIZANDO!!!!!!

      A Comix Book Shop já começou a pré-venda, anunciando a publicação para fevereiro deste ano.

      http://www.comix.com.br/produc

      Agradeço ao amigo Sorg, do Baile dos Enxutos, pela informação.

  • é impossível ler o scan dessa revista, impossível…

    Doí muito a vista.

    • JJota

      Na verdade, Renver, também é escroto de ler a edição impressa. Mas a Panini prometeu que a reimpressão também resolverá este problema.

      • O principal problema da versão lançada pela Abril é que com aquela lombada quadrada e capa brochura, vc tem que tomar muito cuidado ao ler pq senão as páginas simplesmente se desprendem. Tomara que a Panini conserte isso. Aliás, já tem previsão de lançamento ?

        • JJota

          Como disse, a Panini aparentemente adiou o lançamento sem dar explicações ou marcar uma data.

          Acho que com capa dura este problema será resolvido. A minha edição nunca apresentou problemas de soltar páginas. Edições que sofrem muito com isto são as que eu tenho lançadas pela Mythos mesmo…

        • JJota

          ATUALIZANDO!!!!!!

          A Comix Book Shop já começou a pré-venda, anunciando a publicação para fevereiro deste ano.

          http://www.comix.com.br/product_info.php?products_id=18304

          Agradeço ao amigo Sorg, do Baile dos Enxutos, pela informação.

    • [2]

  • Harvey_o_Advogado

    nunca vi, mas só ouvi elogios, principalmente da cena que o coringa faz fio terra no batema.

    • JJota

      Ah, sei, a cena do cdf…

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