Aqui – de Richard McGuire

Recém lançada pela Companhia das Letras, a HQ do premiado autor Richard Mcguire tem tradução de Erico Assis. Esses dois nomes em uma mesma frase já caracterizam todos os motivos que alguém precisaria para ler esse trabalho, mas se eles não bastassem, Aqui (Here) é um prato cheio para quem aprecia a produção experimental aliada à Arte.

Conheci o trabalho de McGuire por intermédio de uma colega na disciplina de histórias em quadrinhos do mestrado. Sua pesquisa é sobre, Building Stories, de Chris Ware, porém, como existe um diálogo entre os dois quadrinhos, ela estabelece algumas relações possíveis entre eles. Quanto a Here, previamente publicada em tiras pela Raw nos anos 80, antologia de Art Spiegelman (Maus) e Françoise Mouly ( The New Yorker), é certamente uma HQ que vale a pena conhecer, tanto por fãs da nona arte, quanto por quem curte metalinguística e arte conceitual.

McGuire explora a relação entre a memória e o espaço que habitamos por meio de sobreposições de ideias e imagens, diálogos e possibilidades, que levam o leitor a uma viagem no tempo, tanto no passado quanto no presente, promovendo a interação entre pessoas que jamais se encontraram.

O cenário é praticamente o mesmo ao longo de toda narrativa (podemos chamar de narrativa?): uma sala, de uma casa (nas tiras era um apartamento), onde observamos todas as possíveis ocorrências no local, em diversos momentos, indicando que cada parede, cada canto, guarda uma quantidade de memórias, histórias e significados infinitos. Como uma sobreposição constante de imagens, somos apresentados a uma gama de personagens e vivências que conferem vida ao ambiente, como se esse pudesse conter alguma essência, ao mesmo tempo que falamos de objetos inanimados, espaços inertes.

No entanto, até mesmo um espaço vazio tem sua razão de ser. Você já pensou em todo sentimento que já passou pelos espaços por onde você habita? Uma parede vazia pode ter sido testemunha de uma tórrida cena de sexo ou um nascimento ou um assassinato ou de desprazeres…

A genialidade de Aqui está no fato de possibilitar tantas interpretações que é possível dizer que há ali uma infinidade incalculável de histórias que serão compreendidas de forma diferente por cada visitante. Por alguma razão, me remete à famosa cena da sacola esvoaçante de Beleza Americana, cuja mensagem é de que há poesia em tudo, basta querer enxergar. Então, embora o que tenha chegado a mim sobre o autor tenha vindo principalmente por meio de outras pessoas, cada uma delas contribuiu para que essa ideia de que há algo de extremamente póético no trabalho de McGuire se firmasse como algo muito forte, principalmente por serem referências no meio dos quadrinhos.

Minha reação ao ler a HQ foi de dúvida: “Espera, isso é mesmo uma HQ?”. Em seguida, a digestão lenta, muito em função de eu não ter compreendido instantaneamente o que eu mesma sentia. Por fim, (Meme do cérebro explodindo!) eu achei mesmo incrível que alguém tenha pensado nisso e tenha conseguido registrar algo que muitos de nós não conseguiria nem conceber.

Portanto, fica a dica. Leia, reflita ou apenas deixe no meio da sala para decorar aquela sua mesa de centro (ela tem uma paleta de cores bem agradável), porque é no mínimo um trabalho muito interessante de conhecer.

Saiba mais:
Título original: HERE
Páginas: 304
Formato: 17.00 x 24.10 cm
Peso: 1.040 kg
Acabamento: Capa dura
Lançamento: 24/07/2017
ISBN: 9788535928723
Selo: Quadrinhos na Cia
https://www.companhiadasletras.com.br/detalhe.php?codigo=65088

Chris Ware e o quadrinho experimental – Parte III

http://www.blogdacompanhia.com.br/conteudos/visualizar/Aqui-aqui

“Aqui”

Here: Richard McGuire fala sobre a criação de sua obra-prima

 

 

 

Dani Marino
Dani Marino é pesquisadora de Quadrinhos, integrante do Observatório de Quadrinhos da ECA/USP e da Associação de Pesquisadores em Arte Sequencial - ASPAS. Formada em Letras, com habilitação Português/Inglês, atualmente cursa o Mestrado em Comunicação na Escola de Artes e Comunicação da USP. Também colabora com outros sites de cultura pop e quadrinhos como o Minas Nerds, Quadro-a-Quadro, entre outros.