Anarquia – substantivo feminino!

Eu demorei para ler Anarquia com calma. HQ escrita por Emílio Baraçal e desenhada em parceria com diversos artistas, foi publicada inicialmente em versão digital, em 2014 e posteriormente em versão impressa, ambas pela Supernova produções. Entre os artistas responsáveis pelo primeiro volume, estão nomes de peso como: Eduardo Vienna, Geanes Holland, Celso Ricardo, Hélio Oliveira, Éder Messias e Leo Rodrigues; arte-final de Carlos Eduardo Ferreira, Denis DYM Freitas, Eduardo Vienna, Hélio Oliveira, Mano Araújo e Osvaldo Ferreira; cores de Salvatore Aiala, Thiago Ribeiro, Débora Caritá, Osvaldo Ferreira, Tiago Mariano, Beto Menezes e Dijjo Lima; letras de Deyvison Manes e Gustavo Pinheiro. Capas de Danilo Beyruth, Geanes Holland, José Luís, Bruno Oliveira e Thony Silas.

A minha birra inicial se deve ao fato de não ser uma das maiores fãs de quadrinhos de heróis e por acreditar que o gênero não “combina” como nosso país. Porém, Anarquia é uma história que consegue ir além dos estereótipos, podendo ser considerada uma boa narrativa para diversos gostos.

Com referências facilmente identificáveis, como os ideais que movem o anarquista V em V de Vingança, além de um contexto extremamente atual, os diálogos e falas são bem construídos e são usados de forma harmoniosa  com as imagens. Apesar de diversos desenhistas, o traço e as características físicas dos personagens, se mantêm ao longo da HQ, o que indica o profissionalismo da equipe que não deve nada aos artistas internacionais que trabalham para grandes editoras em ritmo industrial.

Por mais que seja difícil manter uma visão absolutamente crítica em relação ao trabalho de um amigo (Baraçal é um amigo), eu cofesso que tive uma boa surpresa ao me deparar com a qualidade do trabalho. Ainda que eu não seja talvez o público alvo da revista, eu achei a leitura bem agradável e não encontrei nada que me chamasse a atenção negativamente. Na verdade, fiquei bem feliz em ver uma personagem feminina sendo retratada de uma forma verossímil, dentro do que é possível para uma obra de ficção que, inevitalvelmente, apresenta alguns clichês do gênero.

A história gira em torno de Adriana, filha de um militar que sofre de lapsos de memória e que aparece em lugares que não lembra como chegou. Sua vida vai se complicando na medida em que descobre os motivos desses lapsos e a partir daí, precisa lidar com uma série de eventos ligados à sua identidade, que está relacionada a uma grande conspiração envolvendo russos, microchips, programas secretos e supersoldados. Parece familiar?

Os elementos relacionados aos thrillers policiais e suspenses investigativos estão todos lá, por isso, para quem não perdia um episódio de Arquivo-X, CSI e séries afins, a HQ certamente oferece mais motivos para que os leitores acompanhem os novos arcos que serão publicados em breve.

O gênero ligado aos justiceiros tem lugar garantido no indústria do entretenimento e a prova disso é o sucesso de outra HQ nacional com a mesma proposta, O Doutrinador, de Luciano Cunha, cuja adaptação cinematográfia será exibida em salas do mundo todo.

Assim como V (V de Vingança), Anarquia tem motivações que a fazem acreditar que medidas extremas são necessárias em casos extremos, uma vez que o povo parace estar inerte diante do saqeuamento do próprio país. Para além das ideologias políticas, é inquestionável que a insatisfação com nossos governantes é geral e que, muitas vezes, nossa vontade é de tomar as rédeas da situação e fazer justiça com nossas próprias mãos.

Não e preciso ser a favor de justiçamento (ela mata políticos) para apreciar a narrativa, afinal, entre as funções da ficção, está justamente a de possibilitar a catarse de alguns sentimentos por meio da identificação e da projeção que realizamos ao consumirmos certas produções. Mais que isso, ler uma HQ com a qualidade de Anarquia, nos prova que a produção nacional independente não deve nada mesmo ao mercado estrangeiro e isso, por si só, já é motivo de sobra para prestigiá-la.

A única coisa que eu mudaria, e aí é uma questão totalmente pessoal em relação à estética, talvez fossem as cores. Provavelmente, os tons mais escuros entre cinzas e marrons se devam ao tema da revista, mas por ser ambientada em Santos, que é uma cidade litorânea e com paisagens incríveis, talvez uma corzinha viesse a calhar! rs

 

Dani Marino
Dani Marino é pesquisadora de Quadrinhos, integrante do Observatório de Quadrinhos da ECA/USP e da Associação de Pesquisadores em Arte Sequencial - ASPAS. Formada em Letras, com habilitação Português/Inglês, atualmente cursa o Mestrado em Comunicação na Escola de Artes e Comunicação da USP. Também colabora com outros sites de cultura pop e quadrinhos como o Minas Nerds, Quadro-a-Quadro, entre outros.