A Redenção de Fredric Wertham

Se você é um grande fã de histórias em quadrinhos, provavelmente já ouviu falar de Fredric Wertham e do Comics Code Authority (CCA), código de autocensura criado pelos editores de quadrinhos nos anos 50, em virtude das acusações de um dos psiquiatras mais conceituados dos Estados Unidos.

Muito embora Wertham não tenha sido a única pessoa a se opor a produção de quadrinhos, seu livro A Sedução do Inocente, eleito o melhor livro do ano em 1954, trazia duras críticas, além de supostas pesquisas, que apontavam as HQ como as grandes responsáveis pelo aumento da delinquência juvenil no período pós-guerra. Suas denúncias serviram como estopim para a instauração de diversas audiências presididas por membros do subcomitê de investigação da delinquência juvenil do senado americano, intimando psicólogos, pedagogos, especialistas em juventude e os responsáveis pelas maiores editoras de quadrinhos do país.

 

Por isso, o psiquiatra acabou se tornando uma das figuras mais odiadas da história dos quadrinhos, não só por editores, mas por leitores e pesquisadores ao longo das décadas que se seguiram após o lançamento de seu livro. Sua fama foi ainda mais abalada recentemente, quando uma professora da Universidade de Illinois, EUA, submeteu um artigo a um periódico acadêmico, explicando como Wertham teria falsificado uma série de dados em seu livro para conseguir convencer o público do que ele estava convencido plenamente — histórias em quadrinhos não só eram responsáveis pelo aumento da delinquência juvenil, como também afastavam os jovens da literatura e outras artes consideradas “mais nobres”.

Porém, o documentário Diagram for Delinquents, produzido pela BBC e lançado em 2014, faz uma radiografia da vida de Fredric Wertham e traz aspectos de sua história que não costumam estar disponíveis ao público. Isso ainda pode ser reflexo de uma campanha bem-sucedida, empreendida pelos grandes editores de quadrinhos, após as acusações que pesavam contra as revistas.

O filme com quase duas horas de duração, mistura depoimentos de amigos, pesquisadores, artistas como Brian Azzarello, e trechos de entrevistas e audiências em que Wertham expressa sua aversão às HQ, bem como falas controversas de William Gaines (EC Comis, comprada posteriormente pela DC) tentando defender sua produção.

Até aqui, nada de novo, certo? É possível que você, assim como eu, tenha uma visão extremamente negativa de Wertham, afinal, o CCA, criado com base nas audiências onde o psiquiatra defendia tão enfaticamente que as HQ deveriam ser banidas do país, mudou a história dos quadrinhos para sempre.

No entanto, o que talvez outras publicações sobre a época não forneciam, ou ao menos não forneciam de forma tão clara, é o contexto em que esses acontecimentos ocorreram: um dos fatores contundentes para as acusações de Wertham foi o assassinato de uma mulher de 42 anos cometido por um menino de 11 anos, na Califórnia, e que, de acordo com o depoimento de seu irmão mais velho, teria agido a exemplo do que costumava ler nos quadrinhos.

Por volta dos anos 50, um dos gêneros mais populares de HQ era o de terror. Inspirados pelas dezenas de pulps disponíveis nas bancas, as revistas traziam histórias onde uma bola de baseball era a cabeça de alguém cujos membros encontravam-se espalhados pelo campo como marcadores das bases. Ou, a história onde uma mulher assassina um homem a machadadas dizendo que gostaria que ele sofresse muito e, em seguida, serve seus órgãos como iguarias em uma vitrine de um café.

O documentário também mostra que o índice de violência entre os jovens aumentou assustadoramente após a guerra e a delinquência juvenil se tornou a maior preocupação da sociedade americana, que precisava nomear um culpado para os crimes. Entretanto, o que parece ser ignorado pelos americanos na época e é apontado por sociólogos, é que a estrutura social americana passou por mudanças significativas entre o final dos anos 40 e início dos anos 50 — com o surgimento dos subúrbios, as famílias se mudaram dos grandes centros, se afastando de seus núcleos onde tias e avós cuidavam das crianças quando os pais estavam fora. De repente, homens e mulheres estavam morando longe do centro, mas precisavam trabalhar, então, saiam e deixavam as crianças em casa, muitas vezes sozinhas ou aos cuidados dos irmãos mais velhos.

Some ao contexto o fato de Wertham ter dedicado a vida e entender as causas violência e seus efeitos sobre crianças e jovens. Adicione as teorias sociais mais populares na época, como as linhas da Escola de Frankfurt, de onde saíram nomes como o apocalíptico Theodore Adorno, que entre outras coisas, ajudou a difundir os conceitos de indústria cultural, cultura de massa e alta cultura. Pense que grandes teóricos acreditavam que a cultura de massa seria responsável não só pelo “emburrecimento’ da massa, mas também por sua manipulação. Aí, tome conhecimento de crimes que simulam ações que ocorrem nos quadrinhos e que são perpetradas por crianças que passam o dia lendo histórias em que pessoas picam, esfolam e estripam outras e voilá! Temos a fórmula mágica que convenceu Wertham e toda uma sociedade, que não havia outro culpado pela delinquência juvenil se não uma revista de histórias em quadrinhos.

Embora o código tenha passado a ser ignorado já a partir dos anos 70, quando Stan Lee criou histórias do Homem-Aranha que faziam menção ao abuso de drogas, forçando uma revisão dos padrões do CCA, ele só foi encerrado em 2011. De acordo com o que muitos artistas afirmam no vídeo, a existência do CCA foi extremamente prejudicial para os quadrinhos, que demoraram muito tempo para deixar de sentir seus reflexos.

Quanto a Wertham, ele é apontado como uma pessoa extremamente humanitária e com grande coração. Quando negros ainda eram segregados em diversos espaços, ele foi o único psiquiatra que se dispôs a atender as crianças que não teriam acesso a atendimento de outra forma. Wertham também depunha em audiências e julgamentos de menores, sempre procurando ajudar aqueles que ele enxergava como grandes vítimas da cultura de massa.

O psiquiatra mais conceituado dos EUA nos anos 50, se dedicou avidamente a banir os quadrinhos do país, por meio de publicações em jornais e palestras, tentando alertar o pais quanto aos perigos daquelas publicações, por isso, ao escrever seu livro, não poupou esforços para provar suas convicções à sociedade.

Certamente, essas informações não o redimem do fato de ter forjado dados em sua pesquisa, no intuito de aumentar a preocupação dos pais e educadores sobre os perigos das histórias em quadrinhos, mas conhecer sua história e o contexto que a envolve, nos ajuda a ter uma perspectiva menos severa em relação a ele, afinal, as ciências sociais e a psicologia provaram que a recepção cultural exerce impacto diferente em realidades diferentes, por isso, qualquer afirmação absoluta sobre nossa relação com as mídias deve ser recebida com cautela.

Wertham não foi um santo e também não é nem de longe o demônio que muitos acreditam. Seus meios para atingir um fim não são justificáveis, mas são compreensíveis na lógica de alguém que, acima de tudo, queria poupar as crianças de elementos que ele entendia como nocivos. Não é isso que o pais fazem, afinal? Erram tentando acertar? Ao menos, essa é a visão que tenho depois de ter assistido ao documentário: alguém cujas intenções eram boas, mas que foram sobrepostas por ações infelizes.

O documentário não foi lançado no Brasil e não pode ser assistido online, mas pode ser adquirido em inglês aqui:
http://sequart.org/movies/3/diagram-for-delinquents/

 

Dani Marino

Dani Marino é pesquisadora de Quadrinhos, integrante do Observatório de Quadrinhos da ECA/USP e da Associação de Pesquisadores em Arte Sequencial – ASPAS. Formada em Letras, com habilitação Português/Inglês, atualmente cursa o Mestrado em Comunicação na Escola de Artes e Comunicação da USP. Também colabora com outros sites de cultura pop e quadrinhos como o Minas Nerds, Quadro-a-Quadro, entre outros.

  • Whertam disse nunca ter defendido a censura, até fez um livro fala bem dos fanzines, mas a verdade é que ele manipulou dados.

  • Rafael Senra

    Ótimo texto, Dani! Tirar Wertham da zona de caricatura é uma maneira de tornar as críticas a ele mais próximas de uma análise científica, algo objetivo e sem revanchismos. Sempre importante separar o joio do trigo. Abraços.

    • Muito obrigada, Rafael! Eu gostei muito de ter assistido ao documentário e desconstruir a imagem que tinha dele.