A Faculdade feminina de Overwatch e o segregacionismo

Vamos lá!
Em abril de 2017,a faculdade de Stephens, em Columbia, EUA, anunciou o apoio à criação de um time exclusivamente feminino de jogadoras de Overwatch, por meio de bolsas universitárias. Embora a concessão de bolsas para times mistos já exista em várias universidades, assim como competições mistas de games, a atitude da faculdade de Stephens reflete uma necessidade de aumentar a presença das mulheres nas competições, uma vez que elas representam um grande número de gamers nos EUA, mas que, devido ao assédio, violência e machismo denunciado constantemente no meio gamer, não conseguem alcançar os mesmos patamares de competitividade.

Como assim?

Bom, dentro da mentalidade da meritocracia, ampalmente difundida em nossa cultura, aprendemos que as pessoas recebem a exata medida do que merecem, ou seja, quem se esforça mais, chega mais longe. Por isso, se as mulheres jogam tão bem, elas conseguiriam acançar os mesmos resultados que os homens em competições mistas. Bom, elas conseguem, não faltam exemplos de ganhadoras de competições, a questão é, o número de mulheres nessas competições, além de não ser o mesmo que o dos homens, acaba sendo menor devido a uma série de problemas que elas enfrentam para jogar, como contante assédio, ameaças e xingamentos. Isso faz com que muitas desistam ou se afastem dos grupos, por isso, ações exclusivas conseguiriam aumentar o número de mulheres participando nas faculdades de games e, consequentemente, aumentaria o número de competidoras nos jogos. Ou seja, a falácia da meritocracia parte do princípio que os pontos de partida na vida de homens, mulheres, negros, gays, seria o mesmo e bom, não é! Esse vídeo francês ilustra bem o que estou tentando dizer:

Ah, mas isso é segregacionismo!

Não é! De acordo com o dicionário PriberamQue ou quem defende ou aplica tratamento desigual ou injusto com base em preconceitos étnicos ou raciais

Considerando que estamos falando de gênero, é apenas muita ignorância afirmar que ações exclusivas femininas são segregacionistas, mas sigamos…

Então é sexismo!

Ainda de acordo com o Priberam: 1. Teoria que defende a superioridade de um sexo, geralmente o sexo masculino, sobre o outro2. Discriminação baseada em critérios sexuais.

Bom, aí poderíamos começar a conversar, se não fosse o fato de: quem invisibilizou, violentou, diminuiu e exclui as mulheres ao longo da História de todos os meios possíveis, foram os homens! Homens sim, excluíram as mulheres por muito tempo, da educação, da política, da vida… Com base em um pensamento de superioridade de um gênero em relação ao outro. Logo, qualquer ação no mesmo sentido, além de não produzir o mesmo resultado, uma vez que estamos falando de atores em diferentes posições sociais, não tem a mesma intenção. Enquanto homens excluem mulheres de eventos e espaços baseados na crença de superioridade de gênero, as mulheres buscam diminuir as diferenças por meio de ações de AUTODEFESA e afirmação e que nada têm a ver com conceitos de superioridade, mas com necessidade de se criar meios para que elas possam competir em pé de igualdade, coisa que não vem sendo proporcionada. Então, basicamente, equanto a exclusão praticada por homens em relação às mulheres é uma forma de violência sexista, no que tange às mulheres se trata de uma REAÇÃO. Basicamente, acusar ações exclusivas femininas de segregacionistas ou sexistas seria o mesmo de acusar os índios de agressores ao se defenderem dos colonizadores, não faz sentido!
Vale a máxima que diz: não confunda a reação do oprimido com a violência do opressor.

Por mais que muitos homens não ajam dessa forma (nem todo homem), o fato é que o meio gamer e nerd em geral é extremamente tóxico e hostil para as mulheres. Não à toa, o número de grupos exclusivos só cresce, com mais participantes a cada dia, que procuram discutir seus assuntos favoritos sem serem agredidas a cada postagem.

Portanto, apesar de toda a choradeira de muitos homens nos sites e portais que divulgaram a noticía, a verdade é que essas ações são necessárias justamente pelo que podemos observar nesses comentários. A grande maioria tentando desqualificar uma ação que só existe em decorrência do comportamento inadequado de quem não aceita que mulheres podem e devem participar dos mesmos espaços e com os mesmos direitos. É como ilustra o vídeo abaixo, que o menino come todos os sorvetes do mundo, mas quando a menina ganha uma mísera bolinha, ele se põe a chorar dizendo que as feminazi roubaram seu sorvete. Por isso, não sejam esse menino! Conversem com os amigos e expliquem que agindo da forma que agem, além de justificarem a necessidade de ações exclusivas femininas, eles estão é passando vergonha na internet! 😉

 

 

Dani Marino
Dani Marino é pesquisadora de Quadrinhos, integrante do Observatório de Quadrinhos da ECA/USP e da Associação de Pesquisadores em Arte Sequencial - ASPAS. Formada em Letras, com habilitação Português/Inglês, atualmente cursa o Mestrado em Comunicação na Escola de Artes e Comunicação da USP. Também colabora com outros sites de cultura pop e quadrinhos como o Minas Nerds, Quadro-a-Quadro, entre outros.