13 Motivos para Tentar Ser uma Pessoa Melhor

13 Reasons Why levantou diversas questões após sua estreia na Netflix. A princípio, havia pensado em chamar atenção a estes temas, contudo, seria mais um texto sobre os mesmos assuntos. É inegável o papel da série no atual debate acerca de tópicos tão importantes e, claro, polêmicos: bullying, sexismo, homofobia, assédio, estupro, suicídio. Havia desistido de escrever sobre o tema quando li uma crítica do André Trigueiro. Isto me levou a outro questionamento: até que ponto o fato de sermos “especialistas no assunto” limita nossa visão?

Segundo o jornalista, que estuda o suicídio desde 1999 e lançou um livro sobre o assunto em 2015, a série “é inspiradora – no mau sentido – para que jovens depressivos e angustiados não percebam outra saída que não a própria morte.” A abordagem estaria em desacordo com as recomendações da OMS e promoveria a “vitimização do suicida, justificando o autoextermínio de Hannah por tudo o que lhe aconteceu.” A análise de Trigueiro é totalmente centrada no suicídio de Hannah, ignorando todas as outras questões envolvidas – inclusive as fortes cenas de estupro.

Como ele pesquisa o “fenômeno do suicídio”, nas palavras dele, é normal focar naquilo que, teoricamente, domina. Entretanto, este conhecimento superior realmente o capacita para entender algo tão subjetivo? A “carteirada” dada no início de seu texto informa o leitor de que ele sabe do que está falando (afinal, são 18 anos estudando o assunto) e o restante da leitura é acompanhado por este “selo de garantia”. E quem sou eu para questionar sua palavra? Eis que, lendo os comentários, percebi algumas pessoas elogiando a série. Não pesquisadoras, mas pessoas com depressão ou que já tentaram se matar – indivíduos que sentiram ou sentem o problema na pele. Outra repercussão positiva da série ocorreu nos centros de ajuda (CVV), que tiveram o número de ligações aumentadas em 100%. Além disso, há as diversas manifestações nas redes sociais. Neste caso, como pesar as falas?

O incômodo não foi falarem mal de uma série que, claramente, eu havia gostado, ou seja, não é mimimi de fã, mas usar “conhecimentos especializados” para taxar uma obra como negativa, sendo que há um universo de possibilidades interpretativas. Desconsiderar outras abordagens enfraquece o argumento. Sua inclinação para a análise do suicídio clareou um determinado caminho, mas obscureceu todos os demais. Talvez o fato de não possuir “competência para fazer crítica de cinema” tenha estreitado sua observação, levando-o limitar a obra àquilo que mais se sente confortável em tratar. Contudo, conhecer as próprias restrições não deveria impedir de reconhecer a existência de outros pensamentos tão válidos quanto o seu.

Antes de considerar 13 Reasons Why como uma ferramenta para a saúde pública, o jornalista – ou qualquer outra pessoa – deveria assisti-la como ela realmente é: uma obra de entretenimento que aborda temas polêmicos. A série só pode ser utilizada como recurso para a saúde se acompanhada por profissionais e em ambientes muito específicos. Neste caso, é preciso saber diferenciar conteúdos informativos, educativos e meramente de entretenimento. Olhar a série como material para a saúde automaticamente a diminui, pois, de fato, não é um bom objeto educacional. O que Trigueiro faz é olhar a obra com olhos de, como ele mesmo coloca, “suicidólogo” – o que também é questionável, afinal, ele é jornalista e não psicólogo, sociólogo, antropólogo ou psiquiatra.

Obviamente, o suicídio é o que une todas as subtramas, mas, de fato, não é necessariamente o principal – afinal, ele já aconteceu. Como obra de entretenimento, 13 Reasons Why te coloca em uma situação desconfortável: cria empatia sobre as personagens ao mesmo tempo em que te incapacita de ajudá-las. Você não pode salvar Hannah ou protegê-la, mas é capaz de avaliar os fatos que a machucaram. Não há controle sobre o que aconteceu, mas é possível evitar que aconteça novamente. Afinal, Hannah começa morta e não há nada a fazer sobre isso.

Como espectadores, criamos uma conexão emocional, mesmo sabendo que não há final feliz ali. E, durante os 13 episódios, somos induzidos a prever mudanças de estado ou novos cursos de acontecimentos e, também, tentamos prever, complementar ou compreender o desenvolvimento da narrativa com base em nossa experiência de vida ou conhecimento de outras histórias. Isto é, a cada agressão, sacaneada ou vacilo fazemos um exercício crítico de pensar alternativas para contornar o problema na inútil esperança de ajudar Hannah. É frustrante, mas ao mesmo tempo esclarecedor, identificar comportamentos maléficos tanto nos outros quanto em si mesmo. Mas também é gratificante poder reavaliá-los a fim de transcender a própria inocência.

Se fosse uma entrevista de emprego, diria: inteligente, esforçado e cujo maior defeito é cobrar demais de si mesmo... Como não é, digo apenas que sou apaixonado por jogos, histórias e cultura nerd.